Que Deus me perdoe pelos males que já causei a quem me amou. Que meu castigo seja nunca, pelo resto da vida, merecer amor de mais ninguém. Amores platônicos, impossíveis, pedidos, errados. Amores que doem recusar. Assim reagi, no ápice da minha “pureza” infantil aos oito anos de idade.
Ana, nossa vizinha, fora contratada pelos meus pais para cuidar de mim e de minha irmã, na época com três anos, enquanto trabalhavam. Com ela, ficava a maior parte do dia. Com ela e seu filho, Diogo, que, pela proximidade das casas, freqüentava o trabalho da mãe e aproveitava para nele permanecer.
Traços de expressão duros marcavam o rosto sério de Ana toda vez que me chamava atenção. Além do susto pelo corretivo dado, meu assombro ao volume e timbre de sua voz era maior porque revelavam, ao meu íntimo, uma existência sofrida. O que haveria de entender mais tarde é que a mulher cuidava de sua casa com o dinheiro honestamente ganho na minha. Seu marido, desempregado havia dois anos, já havia passado da fase de ser um estorvo para virar um mau exemplo de homem à Diogo.
Já Diogo era cruel. Em nossa convivência de anos, não aprendi a me defender de suas piadas e jogos psicológicos, impostos graças a seu porte. O menino, mais velho, mais alto e muito alto e gordo, tinha traços de uma personalidade autoritária. Eu tinha vagamente a percepção que isso vinha de sua vantagem “política” em minha casa: na falta de minha mãe, eu devia obediência à Ana e não poderia arranjar confusão com o filho dela.
Eu era o bastardo.
Motivos, eu tinha de sobra para não gostar de sua companhia, apesar de apreciar a de Ana. Não dizia por medo dos conflitos, mas detestava ver aquela figura cruzando o quintal de minha casa para me trazer sofrimento e dor. O que eu nunca poderia entender é o que se passava em sua alma. Hoje entendo que aquela necessidade de me manipular, de tantas vezes me fazer sentir-me inferior, poderia muito bem esconder recalque e frustração. O modo como Ana me tratava, como cuidava e zelava pelo meu bem estar, dava-lhe a entender que preferia a mim.
Ele era o bastardo.
Era como se sentia.
E ele tinha razão.
Em um de seus últimos em casa, Ana me deu sua última bronca. O motivo, uma molecagem qualquer. Natural, caso não tivesse sido provocada pelo Diogo no intuito de me culpar. Cansado de tanta provocação, submissão e castigos e broncas infundadas, me defendi. Não lembro o diálogo corretamente, mas sim sua essência:
- Foi o Diogo!
- Não minta pra mim! Não minta pra
- Você não é minha mãe!
Foi como dar um tiro. Um tiro dado por uma criança aos oito anos de idade. Como mirando uma arma de fogo no peito do algoz, eu sabia – no fundo, eu sabia – que tipo de danos iria causar.
- … Não fala isso, menino!
- Falo sim, você não é minha mãe!
Segundo tiro. Senti minhas palavras penetrando na carne dela. Mas em vez de sangue, vi lágrimas verterem daqueles olhos duros. E como tendo um instinto assassino, gostei de sentir aquele poder sobre alguém.
- Você é só a empregada! Empregada!
Terceiro tiro. Desta vez, no orgulho. Para acabar de uma vez com aquilo. Para Diogo sair do meu quintal. Para Ana enxugar suas lágrimas, sair pela porta de onde entrou, e nunca mais voltar.
No dia seguinte, Ana havia sido demitida pela minha mãe. Saiu da cozinha aos prantos, sem me olhar nos olhos. Mas eu a olhei. Eu gostava dela. E foi a primeira pessoa a quem magoei de fato.
Saberia anos depois que aquela mulher havia perdido um filho muito cedo. Sua dor a fez enlouquecer. Minha mãe a demitiu por ter confessado, envergonhada, que pensava em tirar dos braços familiares. Queria-me como filho adotivo.
Bastardo.