De frente para uma avenida, um homem em cima de uma escada e de cola em punho, ajeitou minhas folhas, me deu forma e aqui estou. Um outdoor de formato convencional, impressos em quatro cores e sem apliques, oito palavras em uma frase, uma foto de alguém, outra do produto e a marca de um anunciante. Antes de estar aqui não lembro como fui concebido, mas o mais comum é que publicitários desenhem e escrevam minhas mensagens dentro de um computador, para depois passarem tudo a uma impressora gigante, e então ao suporte metálico que pode estar em qualquer rua, avenida, estrada… tudo a depender das decisões que fizerem por mim.

Não sei até que ponto isso se parece com a gestação de uma pessoa, boa ou má, pela sua sociedade. Só sei que daqui de cima vejo um garoto pichando o muro com sua assinatura. Nós dois somos vândalos. Um com motivos para ser, outro sem. Custa saber qual é qual.

Não importa. Nasci (ou melhor dizendo, surgi) e tenho uma missão a cumprir até meu último dia de vida, que será daqui a 14 dias – uma bissemana, como dizem os publicitários: dizer estas oito palavras, mostrar estas imagens e o logotipo do anunciante ao maior número de pessoas possível. Em suma, vender uma idéia.

Daqui de cima vejo um daqueles pregadores de igreja que procuram salvar vidas com seus sermões. Vejo também índios tocadores de flautas e vendedores ambulantes. Todos eles possuem algo em comum comigo: passam a vida tentando vender as suas idéias a outras pessoas, que as ignoram como se fossem mendigos. A única diferença entre eles e eu é que não sabem quanto tempo têm de vida. Ah, se soubessem…

Para fazer meu trabalho com mais eficiência, é muito apropriado que eu seja assim: grande em proporções, berrante nas cores e simples nas idéias. Uma mensagem gritada, sem romance, sem diálogo e, não raramente, sem razão.

Quando chegar a noite você vai ver o mesmo que eu: uma prostituta encostada no poste. Ela se monta, se maqueia, se penteia e se exibe marginal e maravilhosamente… mas quando chega alguém o papo é curto: “você me dá 5, eu chupo seu pau.”

Como é de dia, podemos ficar com vistas mais prosaicas (se é que um vocabulário assim cabe para um outdoor). Veja: malabaristas de farol, moças de concessionária, mendigos, punks de boutique, empresários e todas as outras pessoas procuram chamar atenção pelo que vestem, possuem, fazem, exibem… mas se chegar perto demais, mais intimamente, não possuem mais do que oito palavras para compartilhar.

Eu, outdoor, preciso disputar a atenção dos passantes em meio a diversos outros outdoors por aqui. Nós nos ignoramos: dizemos o que precisamos dizer, mas não conversamos sobre o que dizemos. Afinal, ninguém pode questionar que o MEU sabão lava mais branco que o dele, por mais irracional que seja a afirmação. Não é possível lavar cada vez mais branco.

Vejo muita gente de carne e osso, passando pela rua, que age da mesma forma falando ao celular.

Nunca achei nada disso muito triste, apesar de meus dias acabarem rápido. Tenho 14 dias para colocar a minha alma neste mundo. Uma promessa de felicidade que deve marcar eternamente a vida das pessoas… isto é, até eu serei trocado por uma propaganda de condomínio em construção. É verdade que alguns vão notar a mudança na paisagem, mas ninguém vai sentir a minha falta. Nem mesmo da promessa que eu fiz e parti sem cumprir. Estão acostumadas. Meu sucessor fará uma promessa ainda melhor.

É, a vida é assim. É como aquele casalzinho lá embaixo. O garoto está prometendo à sua garota que nunca mais vai magoá-la, que é o amor de sua vida e que serão felizes para sempre. Mesmo depois do casamento. Daqui a uma bissemana eles terminam o namoro.

Por Felipe Grilo.

1) Faça uma lista e publique em um blog.

2) Digite qualquer coisa na Wikipedia e leia: sexualidade feminina, síndrome de Estraburgo, astronomia para amadores, baleias, dinossauros, países, notícias do G1.

3) Aproveite que você tem uma Teoria da Conspiração de Curso (TCC) a fazer para concluir sua faculdade, vá a um local sossegado e leia sobre a eficiência da comunicação na construção de marcas em um mundo imediatista.

4) Fique no youtube vendo qualquer idiotice: os melhores virais do ano passado, as comédias stand-up mais engraçadas, aqueles clipes que só você gosta, mensagens de PowerPoint, etc. Depois publique tudo no Orkut.

5) Se você tirou sua carta de motorista recentemente, aproveite que a cidade está vazia e treine suas barbeiragens que usualmente chama de manobras. Se você ainda não tirou, espante o pó da sua apostilinha e prepare-se para a prova do Detran.

6) Baixe todos os episódios de Lost, Prison Break, Dexter, House e qualquer outro seriado da Fox que seus amigos acompanham, e que deixam você deslocado quando entram no assunto.

7) Inscreva-se em vagas de emprego que não condizem com seu perfil (só para ver no que dá).

8) Se você é criança, suba em um muro alto e cuspa de lá de cima. Se você é adolescente, passe um trote. Se você é adulto, experimente comprar algo pelo Polishop.

9) Espere todas as pessoas saírem de casa, afaste os móveis e treine suas técnicas secretas de kung-fu ou dança do ventre (conforme sua orientação sexual).

10) Ligue para os seus amigos entediados e combine um teatrinho alternativo, uma exposição underground ou um filmezinho paquistanês. Zombe dos outros amigos que estão em Ubatuba.

A minha psicóloga (eu faço terapia) disse que eu preciso ser mais espontâneo. De fato eu sou metódico, sistemático demais. E quem me conhece sabe que eu fico frustrado com meus entraves racionais. Pois bem. Perguntei a ela, no meu tom irônico de sempre, como eu faria para ser mais espontâneo: “batendo os calcanhares?” Ela riu, mas não resolveu meu problema.

Então tudo bem! Tudo bem, então! Vamos ser mais espontâneos, senhor Grilo! Vamos bater os calcanhares!

Passei a dar tchauzinhos pro computador antes de desligá-lo. O pessoal da agência onde trabalho falou menos comigo por um tempo.

Antes dava risadas moderadas, daquelas para dentro. Hoje dou risadas altas e curtas, bem espalhafatosas. Às vezes esqueço que meu chefe está no telefone no outro lado da sala.

Ando na rua de braços abertos como se fosse um avião. INHÓOOOOOOINNNN! As pessoas desviam para a outra calçada.

Ainda na rua, às vezes me pego em flagrante andando e dando pulinhos iguais aos daquele corvo, que uma vez apareceu no desenho do pica-pau. Lembra? Pra cada três passos lentos, um pulinho frenético pra cima e mais três passos lentos. É bem gostoso andar assim, mas acho que ninguém experimentou.

Cumprimento os porteiros todas as vezes que os vejo porque, simplesmente, esqueço que os vi a cada cinco minutos. Ou seja, o Seu Arlindo, que é velho e está esclerosando tanto quanto eu, até que me acha simpático. Os outros cumprimentam por educação.

Hoje eu aviso que vou fazer cocô quando tem visita em casa. Antes segurava firme. Para dar um upgrade no meu eu-espontâneo, vou deixar de avisar. Acho que também pediria pra fazer cocô em casa de parente ou amigo. E eu gosto de falar bem assim: “fulano, me dá licença que agora eu vou curtir o meu momento Activia”.

Isso só não virou costume porque se virasse não seria espontâneo: sempre que chego do trabalho, puxo a minha mãe pra dançar (coisa que não sei fazer, então só pego nas mãos dela e fico girando pela sala). Também abraço ela quando me dá vontade e, pra quem não sabe, eu adoro um bom abraço. Minha mãe, que não é afetuosa tanto quanto eu, reclama um pouco desse meu grude. Mas quando era diferente, ela era mais amarga.

Estamos há uma semana sem água regular por causa de um entupimento de cano. A Sabesp veio aqui, mas não fez nada até agora. O síndico ligou pra lá, mas além disso não fez nada até agora. Bem, além do incômodo de tomar banho de canequinha por causa do racionamento, minha mãe não pode lavar as roupas. Do que adianta tomar banho se você não tem o que vestir depois? Estou pensando seriamente em fazer uma visitinha ao síndico da forma como vim ao mundo. Quem sabe ele fica traumatizado ao ver tamanha beleza (mentira) e faz algo pra agilizar o processo?

Mas aí penso nas consequências (sem trema) e tremo diante delas: posso ser preso por atentado ao pudor. Ai, as consequencias! E é sempre isso que me deixa preso em mim.

Fora as coisas do dia-a-dia, escrevo até poeminha de amor. Coisa que detesto fazer porque me obriga a dar vazão aos sentimentos. Fiz com o mais profundo sentimento que uma pessoa como eu consegue sentir. Fiz no propósito de dedicar a uma pessoa especial. Ficou bonito, não me arrependo. Ela continua minha amiga, mas continuo solteiro. E, claro, continuo ouvindo de algumas Julia Roberts e de alguns Richard Geres por aí que “ainda vai aparecer a garota certa pra você”.

Infelizmente, com tudo isso, percebi que as pessoas querem me ver espontâneo, mas só aceitam se for do jeito delas. Do jeito que estão acostumadas. Engraçado como isso parece tão… metódico e sistemático por parte delas. Credo! Eu não sou assim.

Quando uma daquelas plumas flutua pelo ar, eu paro o que estou fazendo para observá-la. Desde a infância é a coisa mais natural do mundo para mim, mesmo que já tenha percebido como, para as outras pessoas, é ser algo corriqueiro e sem significado. Eu, estranhamente, sempre vi nestas plumas um significado profundo.

A dança que fazem no ar pode significar as correntes de ar que a envolvem ou a envolveram até chegar até mim. Estas mesmas correntes podem ter vindo de massas de ar quente e frias no ambiente, ou simplesmente do vácuo das coisas, animais e pessoas que passaram por elas. Podem ter se originado das asas de uma ave distante que passava pelo local, ou talvez, que nunca tenha visto aquelas paisagens. A pluma, sem saber, pode ter passado por locais onde nunca estivemos ou de onde nunca escaparíamos, e ter percorrido distâncias que nunca faremos em vida. E ainda sem saber, talvez tenha chegado a altitudes maiores do que sua ex-dona. E quando esta última morrer, a pluma ainda estará flutuando.

A pluma não tem mais destino e não é de ninguém. Mesmo inanimada, ela “vive” neste “mundo” e move-se com ele. Eu disse “vive”, porque todo este movimento a faz parecer viva. E eu disse “mundo”, pois, se for viva e ninguém se importar, é porque esta pluma é como um fantasma ou um espírito, não fazendo parte daqui.

E quando tentavam apanhá-la, não conseguiam: a pluma dançava e gingava por entre os braços apressados de seus opressores. Mas eu, de tanto observar seu movimento e tudo o que a faz mover-se, consegui apanhar a pluma flutuante sem o menor esforço. Estivesse ela perto ou muito longe de mim, eu estendia o braço e a pluma adormecia na palma da minha mão.

Perguntavam-me o que eu tanto fazia olhando para as plumas. Não sabia responder. Mais tarde, notei que todas as pessoas são como elas em parte de sua existência. E também percebi que, de alguma forma, eu não era só uma pluma como as outras, mas sim todo o meu trajeto neste mundo.

Hoje, eu chamo isso de consciência.

O ateu coloca a culpa nos genes. O religioso, em Deus. O humanista, na sociedade. E o niilista, no acaso. Mas todo ser humano tem uma coisa em comum: quando precisa limpar a consciência, joga sua culpa fora no terreno baldio das abstrações.

Neste exato momento tem uma porra de um mosquito no meu monitor. Se eu mato, borra a tela. Se não mato, ele fica andando. E se dou peteleco, ele volta.

 

Nunca pensei que a vida de um mosquito acarretasse tantos dilemas existenciais.

 

 


 

Num jogo de futebol televisionado, o carrinho foi violento na linha da grande área e os dois jogadores envolvidos começam a discutir. Como houve insultos e impropérios, os comentaristas desistiram de fazer a leitura labial para a grande audiência. Mas foi o seguinte:

- Você é um filho da puta… seu filho da puta! Vai dar carrinho na vaca da sua mãe!

- Aí, cara, é o seguinte: caiu no chão, eu assopro e como!

E depois do outro levar uma cusparada quente no olho, começaram a se pegar pelo gramado.

Era uma vez um certo João, pessoa alegre e mirrada, de gingado torto, que era cara falante e extrovertido. Quando menos se esperava, tinha uma boa piada para contar ou estava informado sobre os assuntos que você mais gostava de discutir. Ou, pelo menos, os assuntos que geravam mais assuntos, e estes mais assuntos ainda, de forma que a rodinha com os amigos no bar nunca parava de rir, brindar, aplaudir, urrar e sacolegar as mesas do bar.

Mas João sofria de um mal um tanto complicado. Quando voltava para casa e colocava sua cabeça no travesseiro, sentia que não conseguiu dizer tudo aos seus amigos. Remoía a idéia de que, por mais legal que fosse, tudo aquilo não era importante. Logo todos os amigos voltavam para suas rotinas e deixavam os papos-furados de João de lado. Não havia nada que pudesse ser aproveitado.

E João tinha muita coisa séria para dizer. Gostaria de falar de amor, de solidão, de falsidade, de traumas, de felicidade e de tanta coisa para as quais… não tinha expectadores. Porque logo viriam os “Pô, qualé João? Você não é disso!” e o enxotariam para mais uma piada. Para esquecer a realidade e se entreter. Ele sabia que seria assim porque era sempre assim, como acontecia ao tentar com os colegas de trabalho, com a família, a namorada e todos que o cercavam. E então foi guardando para depois, e para depois. Durante uns dez anos, nunca encontrou ninguém para conversar de verdade.

Até que, um dia, furioso com a vida e agonizando de tanto ficar calado, saiu do trabalho mais cedo e começou a falar. A falar sozinho, sobre tudo o que sentia, pensava, imaginava de filosofia à política, de religião à ciência, da situação econômica da classe média brasileira ao descaso com os ceifadores de cana nos matagais. E depois, não contente, falou com os amigos tudo o que havia dito a si mesmo. Afirmou com veemência o valor sólido das suas teorias, fez perguntas retóricas a respeito, gesticulou, berrou para calarem a boca, subiu na mesa e discursou sobre cada defeito e podridão que via neles e no mundo. Não conseguia parar de forma alguma, mesmo já não tendo mais amigos depois disso, e então ligou para a família. Despejou sua verborragia sobre a mãe ausente, o pai rígido, as irmãs vagabundas, os primos drogados. Falou a eles todos que pensava ser uma família, e o que sofreu por não ter uma.

Sabia que a situação já estava ficando insustentável, e buscou de verdade não chegar a este ponto. Mas não tinha como: teve que abrir o jogo com a namorada. Com ela, discutiu o relacionamento e o que pensava sobre relacionamentos, como o deles se enquadrava ou não, o que precisava mudar ou melhorar, quais eram os defeitos nela que achava quase insuportáveis. Não a deixou retrucar, nem a colocar seu ponto de vista, nada. Ao menor sinal de interrupção, berrava e pedia silêncio.

Sufocado com o término inusitado e violento do namoro, no qual ela chegou a puxar uma faca, as palavras já entalavam engrossadas por um caudaloso rio de lágrimas na sua garganta. Já de camisa amassada e suja de suor, andou por toda a cidade apontando para cada político ou banqueiro corrupto, cada adúltero, corno ou vadia, bandido ou mercenário, fofoqueira ou macumbeira, fazendo acusações infundadas. Ao ser preso, chorava, esperneava e gritava com os policiais que, não o agüentando mais, o mandaram para um manicômio.

Lá encontrou filósofos e personalidades históricas, para os quais dissertou sobre a vida, a existência, os sonhos, a essência, a alma, a consciência, a inteligência e a paixão e outros diacronismos, como o feio e o belo, o justo e o injusto, o bem e o mal. Os calmantes não o deixavam dormir, os anti-depressivos causavam-lhe ainda mais ódio e as mordaças davam-lhe ainda mais liberdade para gesticular freneticamente. Ao passar dos dias, os administradores da unidade de tratamento temeram uma rebelião, um quebra-quebra ou até um assassinato brutal entre os internos, graças às divergências de opinião que João suscitava.

Craque na oratória, seu destino foi ser expulso de todos os lugares e instituições sociais exceto os conventos, igrejas, mosteiros, sinagogas, terreiros e centros espíritas (estes últimos acreditavam que tinha algum espírito na linha). Em cada templo rezou para todos os santos, anjos, profetas, deuses, caboclos e almas com as quais conseguia certo contato. Para todas as divindades possíveis pediu respostas sobre religião, sentido da vida, céu e inferno, divina providência, milagre e energias cósmicas, bênção e maldição, destino e livre-arbítrio.

Fraco, há 10 dias sem comer ou beber, finalmente teve um colapso nervoso e desmaiou. Mas não sem antes escrever dezenas de páginas a lápis, com tudo o que estava a pensar, até o instrumento perder a ponta do grafite.

Acordou na casa de seus pais, no outro lado da cidade. Vieram lhe socorrer. Estava imundo, sem dinheiro e documento, e sem seus papéis. Também parecia abatido, sem ânimo para andar ou conversar. Deveria ser a fome que sentia, já evoluída em estado de anemia, fadiga, cansaço.

Serviram-lhe comida e bebida, então se animo para agradecer. Obrigado, disse. E foram suas últimas palavras interessadas desde então.

Sua mente estava em estado tão letárgico que não poderia reunir pensamentos ou associações lógicas. Mais do que isso, não sentia a menor necessidade em utilizar seus neurônios para formular perguntas ou respostas. Quando seus pais vinham conversar, respondia sim, não, talvez, não lembro, sei lá, certo e outras pequenas frases que, como se percebia, eram alienadas do contexto. Nenhum resquício de amargura ou ceticismo, nem mesmo “achismo” ou preconceito.

O deixaram em paz durante um tempo. Mas o tempo passava em vão. A vida lhe passava em vão. Tudo o que fazia era olhar para o teto, deitado em sua cama emprestada. Nem mesmo conversas consigo mesmo conseguia manter. E o vazio que sentia em si mesmo era enorme.

Pouco a pouco, percebendo o seu abatimento moral, alguns vizinhos o convidavam para ir ao bar ver jogos de futebol. Isto costuma animar qualquer um. Durante os 90 minutos mais os acréscimos, nenhum comentário, nem mesmo contra o árbitro. Olhar fixo não na tela, mas através dela. Bocejos.

Aquele homem não sabia o porquê, mas não via necessidade de comentar nada. Tudo, em sua mente, já havia sido dito. Para ele, todos os diálogos travados entre as torcidas no bar eram comuns a todos os outros diálogos, em todos os outros bares, e durante todos os outros jogos, sem distinção.

O chamaram para beber, e ver se soltava-se. Conheciam a fama de falastrão do indivíduo, certamente soltaria algumas boas piadas. Nada a declarar. Apenas a concordar ali ou aqui. Tudo, ao que se recordava, já havia sido dito. Por que dizer mais uma vez o que todos já sabem? Será que ninguém percebe tanta redundância nas informações? Nada havia de novo debaixo daquele sol.

Seus amigos passaram a ligar em seu celular perguntando onde estava, o que havia acontecido de ter sumido assim, tão de repente. Dizia que foi para a casa dos pais, e só. De resto, tudo bem? Tudo. Quando você volta? Não sei. E a conversa não ia além disso. Com o tempo, os camaradas notaram algo estranho na voz que respondia aos chamados. Ela não sorria como antes. A ex-namorada também ligou, avisada pelos boatos que cercavam a triste figura. Não queria ter pena, nem amor pelo João, mas convenceu-se de que o João que um dia conhecera ao fundo da alma não habitava aquele corpo.

Como os boatos são naturalmente, se espalharam rápido e todos aqueles que o expulsaram de suas vidas, o queriam de volta, piedosos por notar que era verdade: João não queria mais falar. Nem sobre política, futebol, religião, mulheres e música. Dos assuntos preferidos aos incômodos, nada era aproveitado. Nem mesmo na terapia que começara a fazer por força dos pais, sem sucesso: tudo o que fazia era olhar o ventilador girando suas hélices e fazendo voar todas as suas sílabas ao vento, pequenas e efêmeras demais para serem capturadas por uma peneira lógica.

Poderiam desconfiar de depressão, mas era mais que isso. Era tédio, puro e simples tédio da vida. Nem exposições, nem cinemas ou jornais o atraíam ao mundo onde as pessoas não cansavam de respirar repetitivamente. O vazio, grande como um abismo que abria mais a cada tremer da terra, o consumia e mostrava-se em sua gênese: uma fenda que atravessava o espírito e a inteligência da vida.

Ao perceber no que vinha se transformando, teve uma última idéia antes do resto de seu ânimo apodrecer por desuso: aproveitaria seu estado para colocar em prática um experimento que vinha ao encontro de sua nova filosofia. Extremamente cético e racional, acreditando que palavra ou frase nenhuma valia a pena ser reiterada, pôs-se a inventar um novo significado.

Ele não encarava apenas como um exercício semântico. Ele realmente queria pensar em algo jamais pensado, para então dizer algo jamais dito, e assim transformar as pessoas em novas pessoas, o mundo em algo totalmente livre e, com tudo isso, transcender a pós-modernidade para um novo estágio de consciência.