Inverso

Ninguém é muita gente
Nunca acontece sempre
Nada está em tudo
E o não de hoje é o sim de amanhã.

Cárceres (1)

Ah, se eu asas tivesse,
Diria “mundanos, despeçam-se
Que não os verei mais
Fujo das suas agruras,
Deixo seus restos mortais,
Levo comigo os sonhos,
poucos, que não maculais”

Cobriria montanhas geladas
Invadiria as errantes baladas
das nuvens e auroras boreais
Encararia o sol e suas brasas
caudalosas e infernais.
Que jamais, jamais me impediriam
De rasgar as entranhas astrais.

Pois tiraria asteroides e cometas
De suas órbitas tão teatrais
Tocaria estrelas anãs e vermelhas,
Dissiparia nebulosas espessas
Chegaria ao começo dos tempos,
Ao caos da matéria e seus anais.

Mas de nada adiantariam
Longínquas venturas como tais
Se das doces lembranças suas,
Minha amada, não me livrais.

Que

Quero viver o bastante para

Descobrir, provar e dizer,

Com toda a voz da experiência

O que afirmo desde agora:

Que nem toda primeira impressão é a que fica,

Mas que nem toda aparência engana.

Que nem toda pergunta tem sua resposta,

Mas que é mais grave uma resposta não ter sua pergunta.

Que nem toda tendência é passageira,

Mas que nem todo paradigma deve ser quebrado.

Que nem todo sucesso é retumbante,

E que nem todo fracasso é sem precedentes.

Que nem toda paz é celestial,

Mas que nem todo barulho é infernal.

Que amores platônicos também podem ser recíprocos.

Mas que nem sempre isso acontece com amores correspondidos.

Que a vida nem sempre traz bons momentos,

Mas que a morte, ironicamente, leva os melhores.

Que nem toda dor causa sofrimento.

Que nem toda oportunidade é única,

Que nem toda escolha tem seus critérios,

Que nem toda decisão muda o destino,

Mas que o destino pode mudar decisões.

Que, se existe mistério na vida, está nas melhores circunstâncias,

E que elas nem sempre existem.

Que nem toda liberdade é uma questão de condição.

Que nem toda solidão é só,

Que nem toda companhia acompanha,

Que nem toda multidão está presente.

Que nem sempre imaginar saber é mesmo saber.

Mas que imaginar é sempre mais importante.

E o mais importante,

Que nem toda humanidade está perdida.

(Poema antigo meu. Resolvi relê-lo… estava com saudades dele.)

Enquanto Paulo dormia.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete. Atrasado. De bruços, corpo pesado, braços caídos e rosto amassado, acorda ao lado de Paulo, de sono intranquilo em seu belo berço de madeira. De olhos atentos ao teto Paulo sonha, e com seus dedos tenta tocar cavalos coloridos, planetas desconhecidos, estrelas cadentes que nunca cairiam, em órbita só conhecida pelo vento da janela.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete e cinco. Atrasado de novo. Acorda na mesma posição em que deitou-se ao lado de Paulo, que de sono tão intranquilo se mexe, desarruma os lençóis e vez ou outra faz xixi na cama. Que difícil era contar para a mãe! Paulo só acordava cedo para desenhos e depois ir à escolinha brincar, voltar sujo, tomar banho forçado e ter a certeza de que o dia só termina se deixar seus olhos fecharem.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete e oito. Atrasado mais uma vez. Acorda ao lado de Paulo, que por sua vez dormia entre os pais. Invade o abrigo dos adultos para se proteger do bicho papão, do monstro do armário, da cuca e de outros seres fantásticos que já povoavam sua imaginação.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua mesma cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete e cinco. Outra vez. Acorda ao lado de Paulo, que desta vez fora acordado no meio da noite. Não por um pesadelo. Mas pelo seu primeiro sonho erótico. Sente-se assustado da mesma forma. Mas um susto bom. Ainda ofegante, cerra as pálpebras e dorme feliz.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, vendo a distante miragem do despertador. Sete e vinte. Atrasado, como sempre. Acorda no mesmo horário, posição, pijama e cama de sempre ao lado de Paulo, que por sua vez acorda quando quer, jogado em qualquer posição, vestido ou não para dormir, e nunca na mesma cama. Nem com a mesma mulher.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, vendo a distante miragem do despertador. Sete. Atrasado. Acorda ao lado de Paulo, abraçado à sua esposa. Lua de mel, champanhe, chocolate, e nenhum despertador. A cama? De casal. Pensa: nunca mais dormiria em outra.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, vendo a distante miragem do despertador. Sete e meia. Muito atrasado. Acorda ao lado de Paulo, sua mulher e seu filho entre os dois, vindo exilado ao abrigo dos pais, fugido de suas próprias assombrações. É um doce, amável incômodo. Nunca pensou que sorriria por ver a sua vida se repetir.

Paulo abre os olhos todos os dias em sua triste cama de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Dezenove de abril. Atrasado há vinte anos. Acorda ao lado de tantos Paulos que sonham, criam, vivem. Dos Paulos que nunca se renderam ao sono sem cansaço, nem precisavam de despertadores para acordar.

Enfim, dos Paulos que partiram com o frescor da vida, deixando apenas saudades amargas. Pensa se nunca mais os encontrará numa esquina qualquer de sua alma. De súbito, encolhe-se. A cama de solteiro parece espaçosa demais. A posição fetal não faz voltar uma vida de atrasos. Com o rosto colado no travesseiro, percebe enfim que as flores da fronha haviam desbotado nas lavagens.

Paulo acorda todos os dias em seu triste leito de morte, olhando a distante miragem de si mesmo.

Vazio

Não vejo.

Não ouço.

Não toco.

Não gosto.

Não respiro.

Só sinto:

Estufo o peito sem ar,

Puxo-te para dentro de mim,

Deixo minha alma marcar,

E compreendo de ti

Só o que preciso

Amar.

Bastardo.

Que Deus me perdoe pelos males que já causei a quem me amou. Que meu castigo seja nunca, pelo resto da vida, merecer amor de mais ninguém. Amores platônicos, impossíveis, pedidos, errados. Amores que doem recusar. Assim reagi, no ápice da minha “pureza” infantil aos oito anos de idade.

Ana, nossa vizinha, fora contratada pelos meus pais para cuidar de mim e de minha irmã, na época com três anos, enquanto trabalhavam. Com ela, ficava a maior parte do dia. Com ela e seu filho, Diogo, que, pela proximidade das casas, freqüentava o trabalho da mãe e aproveitava para nele permanecer.

Traços de expressão duros marcavam o rosto sério de Ana toda vez que me chamava atenção. Além do susto pelo corretivo dado, meu assombro ao volume e timbre de sua voz era maior porque revelavam, ao meu íntimo, uma existência sofrida. O que haveria de entender mais tarde é que a mulher cuidava de sua casa com o dinheiro honestamente ganho na minha. Seu marido, desempregado havia dois anos, já havia passado da fase de ser um estorvo para virar um mau exemplo de homem à Diogo.

Já Diogo era cruel. Em nossa convivência de anos, não aprendi a me defender de suas piadas e jogos psicológicos, impostos graças a seu porte. O menino, mais velho, mais alto e muito alto e gordo, tinha traços de uma personalidade autoritária. Eu tinha vagamente a percepção que isso vinha de sua vantagem “política” em minha casa: na falta de minha mãe, eu devia obediência à Ana e não poderia arranjar confusão com o filho dela.

Eu era o bastardo.

Motivos, eu tinha de sobra para não gostar de sua companhia, apesar de apreciar a de Ana. Não dizia por medo dos conflitos, mas detestava ver aquela figura cruzando o quintal de minha casa para me trazer sofrimento e dor. O que eu nunca poderia entender é o que se passava em sua alma. Hoje entendo que aquela necessidade de me manipular, de tantas vezes me fazer sentir-me inferior, poderia muito bem esconder recalque e frustração. O modo como Ana me tratava, como cuidava e zelava pelo meu bem estar, dava-lhe a entender que preferia a mim.

Ele era o bastardo.

Era como se sentia.

E ele tinha razão.

Em um de seus últimos em casa, Ana me deu sua última bronca. O motivo, uma molecagem qualquer. Natural, caso não tivesse sido provocada pelo Diogo no intuito de me culpar. Cansado de tanta provocação, submissão e castigos e broncas infundadas, me defendi. Não lembro o diálogo corretamente, mas sim sua essência:

- Foi o Diogo!

- Não minta pra mim! Não minta pra

- Você não é minha mãe!

Foi como dar um tiro. Um tiro dado por uma criança aos oito anos de idade. Como mirando uma arma de fogo no peito do algoz, eu sabia – no fundo, eu sabia – que tipo de danos iria causar.

- … Não fala isso, menino!

- Falo sim, você não é minha mãe!

Segundo tiro. Senti minhas palavras penetrando na carne dela. Mas em vez de sangue, vi lágrimas verterem daqueles olhos duros. E como tendo um instinto assassino, gostei de sentir aquele poder sobre alguém.

- Você é só a empregada! Empregada!

Terceiro tiro. Desta vez, no orgulho. Para acabar de uma vez com aquilo. Para Diogo sair do meu quintal. Para Ana enxugar suas lágrimas, sair pela porta de onde entrou, e nunca mais voltar.

No dia seguinte, Ana havia sido demitida pela minha mãe. Saiu da cozinha aos prantos, sem me olhar nos olhos. Mas eu a olhei. Eu gostava dela. E foi a primeira pessoa a quem magoei de fato.

Saberia anos depois que aquela mulher havia perdido um filho muito cedo. Sua dor a fez enlouquecer. Minha mãe a demitiu por ter confessado, envergonhada, que pensava em tirar dos braços familiares. Queria-me como filho adotivo.

Bastardo.

Não.

Na fila do mercado:

- Tio, compra pra mim?

A resposta foi seca, como de costume:

- Não.

Tempos depois, ainda na fila, o homem perguntou à sua mulher:

- O que ele tava pedindo, mesmo?

- Um pão e um suco. Você não viu?

- Não…

Tarde demais. O moleque, ainda com fome, foi mendigar em outro lugar.

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Diálogo com minha irmã

Às vezes minha irmã me dá orgulho:

Amigo dela, pelo msn: tô pensando em me entregar a Deus… o que vc acha?

Tamires: se matar ou ir pra igreja?

***

Ironia tá no sangue, mesmo.

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Versinho simples nº1

É o aviso da chuva,

É a lágrima que foge,

É a sede que dura,

É o suor do trabalho,

É o alívio da chuveirada,

É o néctar do pássaro,

É o brilho da rosa,

É o prisma da ótica,

É a cura dos bentos,

É o soro dos pálidos,

É a tortura chinesa,

É a fronteira do cúmulo,

É o fim da picada,

É o nosso mundo

Numa gota d’água.

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A cura.

- Doutor, então quer dizer que não sentirei mais dores?

- Não sentirá.

- De nenhuma espécie?

- Nenhum tipo de dor.

- Nem mesmo as de amor?

- Garanto que não!

- Nada de desilusões, traições, falsas amizades…

- Foram embora.

- E a solidão, doutor?

- Todos vão se juntar a você.

- Ódio, rancor, ira?

- Apenas o perdão.

- Medos, angústias, ansiedades?

- Apenas as certezas.

- Nada de lágrimas?

- Secaram.

- Então estou curado mesmo?

- Completamente curado.

- Nossa, muito obrigado, doutor!

- Fiz tudo o que pude, rapaz.

- Posso pedir só mais um favor?

- Claro.

- Fecha a gaveta para mim?

- Sim. Já tinha mesmo que escrever o relatório. Adeus!

- Adeus!

Então o médico legista apaga as luzes e encaminha-se para escrever a certidão de óbito.

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