Quando uma daquelas plumas flutua pelo ar, eu paro o que estou fazendo para observá-la. Desde a infância é a coisa mais natural do mundo para mim, mesmo que já tenha percebido como, para as outras pessoas, é ser algo corriqueiro e sem significado. Eu, estranhamente, sempre vi nestas plumas um significado profundo.
A dança que fazem no ar pode significar as correntes de ar que a envolvem ou a envolveram até chegar até mim. Estas mesmas correntes podem ter vindo de massas de ar quente e frias no ambiente, ou simplesmente do vácuo das coisas, animais e pessoas que passaram por elas. Podem ter se originado das asas de uma ave distante que passava pelo local, ou talvez, que nunca tenha visto aquelas paisagens. A pluma, sem saber, pode ter passado por locais onde nunca estivemos ou de onde nunca escaparíamos, e ter percorrido distâncias que nunca faremos em vida. E ainda sem saber, talvez tenha chegado a altitudes maiores do que sua ex-dona. E quando esta última morrer, a pluma ainda estará flutuando.
A pluma não tem mais destino e não é de ninguém. Mesmo inanimada, ela “vive” neste “mundo” e move-se com ele. Eu disse “vive”, porque todo este movimento a faz parecer viva. E eu disse “mundo”, pois, se for viva e ninguém se importar, é porque esta pluma é como um fantasma ou um espírito, não fazendo parte daqui.
E quando tentavam apanhá-la, não conseguiam: a pluma dançava e gingava por entre os braços apressados de seus opressores. Mas eu, de tanto observar seu movimento e tudo o que a faz mover-se, consegui apanhar a pluma flutuante sem o menor esforço. Estivesse ela perto ou muito longe de mim, eu estendia o braço e a pluma adormecia na palma da minha mão.
Perguntavam-me o que eu tanto fazia olhando para as plumas. Não sabia responder. Mais tarde, notei que todas as pessoas são como elas em parte de sua existência. E também percebi que, de alguma forma, eu não era só uma pluma como as outras, mas sim todo o meu trajeto neste mundo.
Hoje, eu chamo isso de consciência.
Um Comentário
Eu fui lendo o seu texto, corrido, como uma verdadeira pluma leve no vento. Estava degustando. Entendendo. Percebendo. Relendo. Concordando. Quando de repente, me deparei com aquele do futebol. Nem percebi que tinha mudado o assunto, aliás, percebi, mas não quis dar conta. Só esperava pelo final. E final ainda nem chegou.
Muito bom o seu texto. Nem sei como cheguei aqui. Só sei que é um favorito! =]
Abraços.