Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete. Atrasado. De bruços, corpo pesado, braços caídos e rosto amassado, acorda ao lado de Paulo, de sono intranquilo em seu belo berço de madeira. De olhos atentos ao teto Paulo sonha, e com seus dedos tenta tocar cavalos coloridos, planetas desconhecidos, estrelas cadentes que nunca cairiam, em órbita só conhecida pelo vento da janela.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete e cinco. Atrasado de novo. Acorda na mesma posição em que deitou-se ao lado de Paulo, que de sono tão intranquilo se mexe, desarruma os lençóis e vez ou outra faz xixi na cama. Que difícil era contar para a mãe! Paulo só acordava cedo para desenhos e depois ir à escolinha brincar, voltar sujo, tomar banho forçado e ter a certeza de que o dia só termina se deixar seus olhos fecharem.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete e oito. Atrasado mais uma vez. Acorda ao lado de Paulo, que por sua vez dormia entre os pais. Invade o abrigo dos adultos para se proteger do bicho papão, do monstro do armário, da cuca e de outros seres fantásticos que já povoavam sua imaginação.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua mesma cama fria de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Sete e cinco. Outra vez. Acorda ao lado de Paulo, que desta vez fora acordado no meio da noite. Não por um pesadelo. Mas pelo seu primeiro sonho erótico. Sente-se assustado da mesma forma. Mas um susto bom. Ainda ofegante, cerra as pálpebras e dorme feliz.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, vendo a distante miragem do despertador. Sete e vinte. Atrasado, como sempre. Acorda no mesmo horário, posição, pijama e cama de sempre ao lado de Paulo, que por sua vez acorda quando quer, jogado em qualquer posição, vestido ou não para dormir, e nunca na mesma cama. Nem com a mesma mulher.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, vendo a distante miragem do despertador. Sete. Atrasado. Acorda ao lado de Paulo, abraçado à sua esposa. Lua de mel, champanhe, chocolate, e nenhum despertador. A cama? De casal. Pensa: nunca mais dormiria em outra.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua cama fria de solteiro, vendo a distante miragem do despertador. Sete e meia. Muito atrasado. Acorda ao lado de Paulo, sua mulher e seu filho entre os dois, vindo exilado ao abrigo dos pais, fugido de suas próprias assombrações. É um doce, amável incômodo. Nunca pensou que sorriria por ver a sua vida se repetir.
Paulo abre os olhos todos os dias em sua triste cama de solteiro, olhando a distante miragem do despertador. Dezenove de abril. Atrasado há vinte anos. Acorda ao lado de tantos Paulos que sonham, criam, vivem. Dos Paulos que nunca se renderam ao sono sem cansaço, nem precisavam de despertadores para acordar.
Enfim, dos Paulos que partiram com o frescor da vida, deixando apenas saudades amargas. Pensa se nunca mais os encontrará numa esquina qualquer de sua alma. De súbito, encolhe-se. A cama de solteiro parece espaçosa demais. A posição fetal não faz voltar uma vida de atrasos. Com o rosto colado no travesseiro, percebe enfim que as flores da fronha haviam desbotado nas lavagens.
Paulo acorda todos os dias em seu triste leito de morte, olhando a distante miragem de si mesmo.
5 Comentários
Foi de fato um prazer imenso e uma surpresa gigante encontrar um Grilo poético, lírico, artesão de imagens belíssimas e de personagens riquíssimos. Seu poema em prosa, sua prosa poética toca em feridas profundas de um mundo cada vez confuso e doente. Retoma temas já explorados por outros textos seus. Mas a sonoridade, o tratamento poético, a sensibilidade… denunciam um escritor pleno do dom da palavra. Terminamos a leitura com sensações e imagens povoando nossa cabeça, refletindo, materializando o medo de realmente existir uma solidão eterna, onipresente e esmagadora sobre o vácuo de tudo.
“Dezenove de abril. Atrasado há vinte anos. Acorda ao lado de tantos Paulos que sonham, criam, vivem. Dos Paulos que nunca se renderam ao sono sem cansaço, nem precisavam de despertadores para acordar.”
Adorei esse trecho!! Parabéns Grilinho. Cada texto diferente do outro, cada um deixando no ar uma coisa a se pensar! =) Obrigada pela pequena referência (posso dizer assim?)! Adorei mesmo!
Hey, que lindo! Adorei o texto, de verdade. Orgulhinho da mana, escreve melhor que eu! Manda muito esse Grilo ;D
Nossa! Rico demais! Consegue prender a atenção do leitor, descreve divinamente e tem uma transcendência espetacular. Digno de palmas e mais palmas. Boa sorte! Bjos
Bommmmmmmmmmmmmmmmm ler vc Grilo!!!! Beijoo