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Chineses

Aliás, olha o título de uma das matérias na Veja deste mês:

Chen segura o tchan

Bombeiro chinês salva criança com um braço e com o outro ainda livra o pai que ameaçava jogá-la.

 

***

Após o fim do diploma, mais um jornalista procurando a alegria de viver.

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- Mais uma semana normal, chefe.

- Hm. Vai, fala.

- 336 feridos num terremoto.

- Ok.

- 184 mortos numa insurreição de minorias étnicas.

- Ok.

- E 8% de crescimento econômico. Mesmo com crise!

- Chuuuupa!

 

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- Cara, mas vocês comem cachorro!

- Pelo menos a gente sabe o que come. E vocês, que comem salsicha?

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- Chefe, o ocidente tá reclamando da censura aos meios de comunicação.

- Relaxa. Papinho de minoria étnica.

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Mãe, eu quero ser clichê

E explico o porquê. Acho que a criatividade faz as pessoas ficarem meio idiotas. Aquela coisa da originalidade, de artista, de coisa e tal. Tem aquele discurso de que, ah, a criatividade é ferramenta essencial no mundo corporativo. Tem aquele outro de que pessoas criativas têm maior qualidade de vida e são mais felizes. Mas a realidade é que tem gente fazendo dinheirinho de papel para anotar as idéias, escrevendo suas anotações com giz de cera no azulejo do banheiro. Maluquice é saudável?

Tem gente, mãe, que inventa piadas sem graça o bastante para todo mundo rir e sem sentido o suficiente pra todo mundo parecer bem informado. Gente falando qualquer bobagem pra mostrar engajamento político. Mãe, tem gente que veste umas roupas esquisitas pra dizer que tem estilo próprio. Tem gente que foge da cultura “mainstrean” pra conversar sobre os vícios contemporâneos pela ótica confucionista. Uns papinhos, assim, pra gente de cabeça aberta. Gente criativa, mãe.

Então deixa eu dizer uma coisa: foi uma empregada brasileira, gente humilde e sem essas frescuras, que inventou o escorredor de arroz com o qual você lava os grãos pra fazer o almoço. Um pedreiro também brasileiro inventou a pá que se usa para espalhar o cimento e construir as paredes. Um de nossos ex-metalúrgicos não quis ser presidente: preferiu criar a leiteira que não deixa o leite ferver. Manda um comitê criativesco desses aí reinventar essa leiteira. Descobrir como funciona, pelo menos. Duvido que consigam. O cara levou 18 anos pra fazer isso.

Criatividade deveria ser isso, arranjar soluções (não precisam ser inusitadas) para problemas. Só. Eu considero o inventor do post-it tão ou mais brilhante que os caras que fizeram o Google. Sabe por quê? Porque o cara do post-it colou uns papeizinhos amarelos um em cima do outro pra anotar recados, enquanto os caras do Google tinham uma tecnologia de milhões de dólares nas mãos e não conseguiram criar uma Google Agenda que funcionasse direito. Não tenho computador, mas é o que todo mundo costuma dizer. Sou mais o post-it.

Sei lá, mãe, acho que ser o criativo, o visionário, o único, o original, o tal, não é pra mim. É tudo besteira. Por isso quero ser clichê. É como ficar pelado e sem pudor. Não ter vergonha de dizer provérbios, citações de gente antiga, de dizer coisas como “abrir as portas para oportunidades” ou “a escada para o seu sucesso”. Pense em como é bom dizer “está frio hoje, né?” para alguém no elevador sem sentir a culpa de não ter nada melhor para dizer. Que a primeira impressão é a que fica. Que as aparências enganam. Que fracassos são sem precedentes. Que sucessos são retumbantes. Que eu sofro de amor platônico. Dizer as verdades que cansaram de ser repetidas. Ser lúcido. Recitar poeminhas de Vinícius de Morais. É brega, mas é bom. Se tudo der certo, um dia descobrem que criatividade já virou clichê e que por isso mesmo eu sou um visionário. O visionário da arte Clichê.

Escrevo esse texto enquanto vejo, da minha janela, pessoas vestidas de piratas fazendo pirâmides humanas em cima de 23 fuscas rosas, um tomate em cima de uma torre e um índio caçando pedestres. Não é ácido. É arte pós-moderna. Criativa.

Mãe, espero que minha letra não esteja um garrancho e que dê para ler. Faz tempo que não escrevo à mão, por isso estou praticando desde agora para escrever meu Manifesto Clichê e mandar pelo correio para outros artistas falidos como eu. Só não sei o que é mais clichê, se carta ou e-mail. Mas carta é bem mais barato do que lan house. Sabe como é… todo bom artista nasce falido e morre milionário.

Um beijo, mãe. Diz pro pessoal que eu tô com saudades.

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