Fraco, há 10 dias sem comer ou beber, finalmente teve um colapso nervoso e desmaiou. Mas não sem antes escrever dezenas de páginas a lápis, com tudo o que estava a pensar, até o instrumento perder a ponta do grafite.
Acordou na casa de seus pais, no outro lado da cidade. Vieram lhe socorrer. Estava imundo, sem dinheiro e documento, e sem seus papéis. Também parecia abatido, sem ânimo para andar ou conversar. Deveria ser a fome que sentia, já evoluída em estado de anemia, fadiga, cansaço.
Serviram-lhe comida e bebida, então se animo para agradecer. Obrigado, disse. E foram suas últimas palavras interessadas desde então.
Sua mente estava em estado tão letárgico que não poderia reunir pensamentos ou associações lógicas. Mais do que isso, não sentia a menor necessidade em utilizar seus neurônios para formular perguntas ou respostas. Quando seus pais vinham conversar, respondia sim, não, talvez, não lembro, sei lá, certo e outras pequenas frases que, como se percebia, eram alienadas do contexto. Nenhum resquício de amargura ou ceticismo, nem mesmo “achismo” ou preconceito.
O deixaram em paz durante um tempo. Mas o tempo passava em vão. A vida lhe passava em vão. Tudo o que fazia era olhar para o teto, deitado em sua cama emprestada. Nem mesmo conversas consigo mesmo conseguia manter. E o vazio que sentia em si mesmo era enorme.
Pouco a pouco, percebendo o seu abatimento moral, alguns vizinhos o convidavam para ir ao bar ver jogos de futebol. Isto costuma animar qualquer um. Durante os 90 minutos mais os acréscimos, nenhum comentário, nem mesmo contra o árbitro. Olhar fixo não na tela, mas através dela. Bocejos.
Aquele homem não sabia o porquê, mas não via necessidade de comentar nada. Tudo, em sua mente, já havia sido dito. Para ele, todos os diálogos travados entre as torcidas no bar eram comuns a todos os outros diálogos, em todos os outros bares, e durante todos os outros jogos, sem distinção.
O chamaram para beber, e ver se soltava-se. Conheciam a fama de falastrão do indivíduo, certamente soltaria algumas boas piadas. Nada a declarar. Apenas a concordar ali ou aqui. Tudo, ao que se recordava, já havia sido dito. Por que dizer mais uma vez o que todos já sabem? Será que ninguém percebe tanta redundância nas informações? Nada havia de novo debaixo daquele sol.
Seus amigos passaram a ligar em seu celular perguntando onde estava, o que havia acontecido de ter sumido assim, tão de repente. Dizia que foi para a casa dos pais, e só. De resto, tudo bem? Tudo. Quando você volta? Não sei. E a conversa não ia além disso. Com o tempo, os camaradas notaram algo estranho na voz que respondia aos chamados. Ela não sorria como antes. A ex-namorada também ligou, avisada pelos boatos que cercavam a triste figura. Não queria ter pena, nem amor pelo João, mas convenceu-se de que o João que um dia conhecera ao fundo da alma não habitava aquele corpo.
Como os boatos são naturalmente, se espalharam rápido e todos aqueles que o expulsaram de suas vidas, o queriam de volta, piedosos por notar que era verdade: João não queria mais falar. Nem sobre política, futebol, religião, mulheres e música. Dos assuntos preferidos aos incômodos, nada era aproveitado. Nem mesmo na terapia que começara a fazer por força dos pais, sem sucesso: tudo o que fazia era olhar o ventilador girando suas hélices e fazendo voar todas as suas sílabas ao vento, pequenas e efêmeras demais para serem capturadas por uma peneira lógica.
Poderiam desconfiar de depressão, mas era mais que isso. Era tédio, puro e simples tédio da vida. Nem exposições, nem cinemas ou jornais o atraíam ao mundo onde as pessoas não cansavam de respirar repetitivamente. O vazio, grande como um abismo que abria mais a cada tremer da terra, o consumia e mostrava-se em sua gênese: uma fenda que atravessava o espírito e a inteligência da vida.
Ao perceber no que vinha se transformando, teve uma última idéia antes do resto de seu ânimo apodrecer por desuso: aproveitaria seu estado para colocar em prática um experimento que vinha ao encontro de sua nova filosofia. Extremamente cético e racional, acreditando que palavra ou frase nenhuma valia a pena ser reiterada, pôs-se a inventar um novo significado.
Ele não encarava apenas como um exercício semântico. Ele realmente queria pensar em algo jamais pensado, para então dizer algo jamais dito, e assim transformar as pessoas em novas pessoas, o mundo em algo totalmente livre e, com tudo isso, transcender a pós-modernidade para um novo estágio de consciência.