Como todo ser humano, eu também odeio.
Meu ódio é uma forma de amor. Assim como amo mais as pequenas coisas, concentro meu ódio nos detalhes.
Por exemplo, odeio que me peçam licença no ônibus. Eu sou magro pra cacete, pode passar à vontade!
Odeio que me interrompam. Perco rápido minha linha de raciocínio.
Odeio bater o dedinho no pé da cama. Nem preciso justificar.
Odeio que insistam. Se eu não quero, não quero.
Odeio que repitam, e repitam, e repitam uma informação. Não sou burro.
Eu já disse que odeio que repitam?
Ah, um conselho: não me aconselhe. Odeio.
Odeio música de academia. Odeio funk. Odeio sertanejo. Odeio rap. Odeio emocore. Enfim, odeio rádio FM.
Odeio mulher que se acha gorda demais, magra demais, alta demais, baixa demais, morena demais, branca demais, etc.
Odeio meus pés. E minhas pernas. E minha barriga. E meu peito. E meus braços. E minha mão. E minha cabeça. E meus cabelos…
Odeio pose. Quem faz pose é burro, não tem conteúdo.
Já disse que odeio burrice. Entendeu?
Odeio pessoas felizes demais. Há algo de muito errado na vida delas para reagirem sempre sorrindo.
Odeio suco de melancia. Ah, e de pêra também.
Odeio bexigas. Na verdade, tenho fobia.
Odeio bater o cotovelo e sentir aquele choquinho, sabe qual é?
Também odeio choque eletrostático: quando se está descalço ou molhado, com o corpo quente, e se pega numa maçaneta de metal.
Odeio dor de cabeça. Tanto quanto um jogador de futebol odeia contusões no joelho, e um boxeador odeia ficar com braço enfaixado.
Odeio ficar com pé molhado.
Odeio piadas fáceis. E isso é um problema, porque geralmente é só o que as pessoas entendem.
Odeio que notem minha timidez. Isso me deixa ainda mais tímido.
Odeio quando dizem que estou deprimido. Isso me deixa ainda pior.
Odeio quem compra ou mendiga afeto.
Odeio quando as pessoas vão para longe.
Odeio gostar demais delas.
Odeio quando desconhecidos puxam assunto no elevador. Não tenho assunto.
Odeio quem trabalha demais e quer me mostrar tudo o que faz.
Odeio quando eu trabalho demais e só falo dos meus projetos com os amigos.
Odeio muitas outras coisas que não lembro. Aliás, lembrei que odeio esquecer.
E sabe o que eu mais odeio entre meus pequenos ódios? Odeio quando as pessoas acham que eu não gosto de nada. Que interpretação mais dramática.
Eu apenas me dou a liberdade de odiar algumas coisas.
Porque quase todo o resto, eu amo demais.