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É curiosa a vida de passageiro. A minha, mesmo: saio de casa todos os dias quase ao mesmo horário, e no mesmo horário de sempre, pego meu ônibus para trabalhar. Mesmo com toda essa pontualidade, chego ao ponto esbaforido, dando sinal enquanto corro, e quando entro no coletivo empurro a catraca com dificuldade.

Quase sempre, quando olho para o fundão, são as mesmas pessoas em seus respectivos bancos favoritos. Reparei: quando podem, elas escolhem onde sentar. As crianças gostam dos bancos elevados, para poderem olhar a rua com mais facilidade. Os mais idosos, que não pagam passagem, ficam lá na frente. Jovens baderneiros, quando existem, preferem o fundão. Poucos gostam de sentar perto do cobrador: vai que o ônibus é assaltado. E no geral, a maioria gosta mais dos bancos de um só lugar.

Aliás, sobre isso, reparei também que o que chamamos de “coletivo”, na maior parte das vezes é apenas “individualismo” sobre rodas. Sempre me dói o coração ver uma pessoa sair do lado de outra só para ocupar uma cadeira totalmente vazia, de lado para a janela. Parece até que a pessoa tinha bafo, cecê, tique nervoso, sei lá, algo que incomode. Mas que nada: é mais uma pessoa espaçosa, que vai abrir as pernas e me espremer, que vez ou outra vai dormir, roncar e não vai acordar quando eu pedir para descer. O cúmulo, no entanto, foi outro dia: alguém me pedir desculpas por ter esbarrado a sua mão na minha.

Isso porque nem falei do cobrador, que passa o dia sentado vendo gente indo e vindo, mas sem que ninguém lhe acene um oi amigo. E piorou ainda mais quando as pessoas passaram a usar o bilhete eletrônico. Agora nem olhar nos olhos, ou no troco. Só quando dá problema nos créditos.

Mas existem raros momentos memoráveis de socialização. Já vi, por exemplo, uma discussão de casal. Discreta, mas ainda assim uma discussão: só reparei quando ouvi atentamente, ao ponto de interromper a conversa com minha falta de sutileza. Mas veja só: o marido (corno, pelo que entendi) era o cobrador, e a esposa, uma passageira rotineira, que via todos os dias.

Já vi belos gestos: pessoas cedendo seus lugares a idosos, mesmo quando o banco não era reservado. Já vi um mendigo pegar o ônibus e dizer orgulhoso ao cobrador: “hoje eu posso pagar”. Já vi amigos se encontrando por acaso papeando alto por toda a viagem. Em japonês. Mas vi familiares, também. Uma sobrinha que gostava muito de seu tio, ao seu lado na viagem. Senti tanta afinidade pela figura que quase puxo papo. E claro, vi belas mulheres.

De uma delas, até sinto falta quando não a encontro sentada, lendo seu livro em francês. Fico de longe, olhando, admirando seu pequeno porte, tão comum e singelo. Por coisas do destino, nunca consegui sentar ao lado dela. Sento atrás, quando possível, e me esqueço da vida olhando as placas, letreiros, pichações e alguns grafites obscenos, elogiando mentalmente o trabalho de um artista humilde, mas que nas portas de garagem consegue desenhar Pernalongas quase idênticos.

1. Conheça um cara influente.
2. Faça tudo pela grana.

É isso aí. Mal terminei a faculdade, já tenho meu próprio livro de auto-ajuda profissional.
Agradecimentos: Xin.

Miserável: “Se eu tivesse muito dinheiro, doaria tudo pra caridade.”

Pobre: “Preciso ganhar logo na mega-sena!”

Classe média: “Não precisa ser rico. Só precisa viver bem.”

Rico: “Ah, mas dinheiro não é tão importante assim.”

Observe como um assunto sério e confessional pode virar algo nonsense:

Não lembro o diálogo inteiro, mas lembro o teor da conversa que tive com uma amiga: o que ela espera de um bom homem.

Disse que seu macho tem que ser esperto. Mas como assim, esperto?

“Ah, se por exemplo eu quiser comer alface às 2 da manhã, ele vai achar o alface de qualquer jeito pra mim. E se não achar, vai rodar a cidade inteira pra achar e vai acabar conseguindo vários tipos de alface, mas não vai voltar pra casa sem um pé que eu goste.”

Porque ele sabe A IMPORTÂNCIA DO ALFACE PRA MIM.”

Aprendi com a diretora de arte lá da agência:

# Como organizar seu lanche do McDonalds pra ocupar menos espaço na mesa:
a) abra a caixinha do hamburguer até ela ficar em 180°,

b) derrame as batatas na tampa dela, deixando o hamburguer ao lado.

c) jogue a caixinha original das batatas (aquela vermelha, que nunca pára em pé) no saco de onde veio seu lanche.

d) Pronto: agora você tem uma caixa de hamburguer que serve também pras batatinhas não ficarem caindo, e tem espaço o bastante para botar o seu cotovelo na mesa.

Ainda não entendi por que paulistanos sobem ou descem os degraus das escadas rolantes. Que já foram feitas pra fazerem isso por nós.