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- Doutor, então quer dizer que não sentirei mais dores?

- Não sentirá.

- De nenhuma espécie?

- Nenhum tipo de dor.

- Nem mesmo as de amor?

- Garanto que não!

- Nada de desilusões, traições, falsas amizades…

- Foram embora.

- E a solidão, doutor?

- Todos vão se juntar a você.

- Ódio, rancor, ira?

- Apenas o perdão.

- Medos, angústias, ansiedades?

- Apenas as certezas.

- Nada de lágrimas?

- Secaram.

- Então estou curado mesmo?

- Completamente curado.

- Nossa, muito obrigado, doutor!

- Fiz tudo o que pude, rapaz.

- Posso pedir só mais um favor?

- Claro.

- Fecha a gaveta para mim?

- Sim. Já tinha mesmo que escrever o relatório. Adeus!

- Adeus!

Então o médico legista apaga as luzes e encaminha-se para escrever a certidão de óbito.

É curiosa a vida de passageiro. A minha, mesmo: saio de casa todos os dias quase ao mesmo horário, e no mesmo horário de sempre, pego meu ônibus para trabalhar. Mesmo com toda essa pontualidade, chego ao ponto esbaforido, dando sinal enquanto corro, e quando entro no coletivo empurro a catraca com dificuldade.

Quase sempre, quando olho para o fundão, são as mesmas pessoas em seus respectivos bancos favoritos. Reparei: quando podem, elas escolhem onde sentar. As crianças gostam dos bancos elevados, para poderem olhar a rua com mais facilidade. Os mais idosos, que não pagam passagem, ficam lá na frente. Jovens baderneiros, quando existem, preferem o fundão. Poucos gostam de sentar perto do cobrador: vai que o ônibus é assaltado. E no geral, a maioria gosta mais dos bancos de um só lugar.

Aliás, sobre isso, reparei também que o que chamamos de “coletivo”, na maior parte das vezes é apenas “individualismo” sobre rodas. Sempre me dói o coração ver uma pessoa sair do lado de outra só para ocupar uma cadeira totalmente vazia, de lado para a janela. Parece até que a pessoa tinha bafo, cecê, tique nervoso, sei lá, algo que incomode. Mas que nada: é mais uma pessoa espaçosa, que vai abrir as pernas e me espremer, que vez ou outra vai dormir, roncar e não vai acordar quando eu pedir para descer. O cúmulo, no entanto, foi outro dia: alguém me pedir desculpas por ter esbarrado a sua mão na minha.

Isso porque nem falei do cobrador, que passa o dia sentado vendo gente indo e vindo, mas sem que ninguém lhe acene um oi amigo. E piorou ainda mais quando as pessoas passaram a usar o bilhete eletrônico. Agora nem olhar nos olhos, ou no troco. Só quando dá problema nos créditos.

Mas existem raros momentos memoráveis de socialização. Já vi, por exemplo, uma discussão de casal. Discreta, mas ainda assim uma discussão: só reparei quando ouvi atentamente, ao ponto de interromper a conversa com minha falta de sutileza. Mas veja só: o marido (corno, pelo que entendi) era o cobrador, e a esposa, uma passageira rotineira, que via todos os dias.

Já vi belos gestos: pessoas cedendo seus lugares a idosos, mesmo quando o banco não era reservado. Já vi um mendigo pegar o ônibus e dizer orgulhoso ao cobrador: “hoje eu posso pagar”. Já vi amigos se encontrando por acaso papeando alto por toda a viagem. Em japonês. Mas vi familiares, também. Uma sobrinha que gostava muito de seu tio, ao seu lado na viagem. Senti tanta afinidade pela figura que quase puxo papo. E claro, vi belas mulheres.

De uma delas, até sinto falta quando não a encontro sentada, lendo seu livro em francês. Fico de longe, olhando, admirando seu pequeno porte, tão comum e singelo. Por coisas do destino, nunca consegui sentar ao lado dela. Sento atrás, quando possível, e me esqueço da vida olhando as placas, letreiros, pichações e alguns grafites obscenos, elogiando mentalmente o trabalho de um artista humilde, mas que nas portas de garagem consegue desenhar Pernalongas quase idênticos.

História de hoje: o corporativismo.

Era uma vez um grupo de andorinhas felizes. Eram amigas e viviam sempre juntas. Caçavam seus peixes e minhocas, abrigavam seus ninhos em árvores frondosas, dormiam coladas umas às outras para se protegerem do frio. Em uma palavra, eram um grupo em total sinergia.

Num belo dia, alguém deu um tiro pro alto. Uma das andorinhas morreu, e todas as outras saíram voando por aí.

Moral da história: corporativismo não existe.

Natal de 2010. Maria, ainda menina, não havia notado os enfeites nas ruas por onde passava por dois motivos: era cega devido aos maus tratos que recebeu, e a data era mais comemorada por ser feriado do que pela vinda de um salvador. A menina só ficou sabendo da data quando uma voz desconhecida, passando por ela, lhe desejou boas festas.

Então era mesmo Natal! Um contentamento a atingiu: os restos de comida que escolhia no meio do lixo logo se transformariam em uma bela ceia. Uma ceia maravilhosa, em uma mesa repleta, rodeada de pais que lhe adotariam. Após sua ceia improvisada, ouviu os cumprimentos entre os ratos que guinchavam fininho de felicidade, se presenteou com as miudezas que havia roubado durante o ano e guardado para a ocasião especial, e foi deitar-se entre o meio-fio e o asfalto, tendo a garoa e a fumaça como sua manta, mas mantendo no candelabro em seu coração um pouco de sonho para se aquecer.

Naquela noite, não precisaria de álcool nem cocaína para sentir-se bem. Bastava-lhe direcionar suas retinas para o alto, o mais que podia, e sentir a presença ofuscante dos pontos luminosos que enfeitavam o céu. Acreditava que as estrelas eram almas vivas, que olhavam pelas pessoas abaixo delas e que algumas vezes atendiam desejos. Naquela noite, o céu estava muito estrelado e bonito – tinha certeza que alguma daquelas estrelas tão brilhantes realizaria seus sonhos.

Natal de 2010. Todos os grandes edifícios mantinham suas luzes ligadas. Centenas de famílias, dependuradas em suas sacadas, faziam contagem regressiva para os fogos de artifício que explodiriam longe dali. Ninguém olhou de volta para Maria.

Longe de mim achar que sou engraçada. Meu trabalho é parecido com o de um almoxarife: a diferença é que os arquivos que eu carrego são mais pesados, e algumas vezes são menos importantes. A vida humana é muito burocrática. Mas, de certa forma, é divertido o que os humanos fazem a meu respeito.

Depois do meu trabalho consumado, eu visito os velórios. A “perda” de um ente querido, amigo ou familiar, é de cortar o coração, todos sabemos. Pra quem tá de pé junto, também. Mas velórios são um espetáculo (e nem precisa ser o de um Michael Jackson, televisionado, com ingressos, cantores e depoimentos ao estilo “arquivo confidencial”).

Existem velórios de todos os tipos. Dá até pra conhecer gente legal: numa família de marceneiros, conheci um sanfoneiro nordestino, que tocava forró nos bailes. Ninguém lembrou o cidadão de trazer a sanfona. Uma pena.

Aliás, tem velório que só serve pra isso: conhecer gente nova e, no caso da parentada distante, dar uma fofocada. Eu ouvi cada coisa que nunca imaginaria. Uma reunião de família na qual o caixão do defunto é a mesinha de centro e o palco de falsas amizades reatadas e acusações suaves entre queridos.

Mas o melhor mesmo é quando falta assunto. Já ouviu a expressão “silêncio sepulcral”? Essa expressão é uma grande mentira: não existe silêncio desse tipo. Porque quando a conversa ameaça a ficar mais fria que o defunto, as frases de velório salvam o dia. Uma pequena lista das que ouvi nas minhas andanças:

- Olha a expressão dele. Tão sereno!

- Alguns parentes só aparecem nessa hora, né?

- Ele parecia tão saudável!

- Vão os melhores, ficam os piores. (Quer registrar uma reclamação? Fale com o sindicato).

- Deus sabe o que faz. (Ah, assim está melhor).

- Hoje em dia, tem gente que morre até comendo coxinha!

- Pelo menos não sofreu muito.

- É, ninguém sabe o dia de amanhã… (reticências filosóficas).

- Ele foi para um lugar melhor… tenho certeza (mal sabe ele).

- Sempre tão preocupado(a) com as pessoas… finalmente vai descansar.

- Morreu, morreu. Antes ele do que eu. (a preferida das crianças).

- Aceita um cafezinho? (nunca entendi o que faz uma copeira num velório).

Apesar da clichezada, venho observando que os velórios estão ficando mais modernos, menos encanados com rituais: num deles pediram pizza, Habib’s e refri nos seus. Noutro, por vingança da amante, convidaram uma dançarina para fazer pole-dancing em cima do caixão (juro!). Num enterro que visitei tinha TV no teto. Quase ligaram a TV pra assistir ao Esporte Espetacular, ver o resultado da liga de vôlei. Também já rolou concurso entre os amigos para ver quem presenciou o “causo” mais absurdo, engraçado e improvável do falecido. Gostei! Valeu o ingresso!

Aliás, cá entre nós, meu amigo e minha amiga: se existem duas ocasiões na vida em que as pessoas se esforçam pra ser criativas, é nos preparativos do casamento e nos da morte. Há uma possível relação entre ambas (principalmente para os homens). Mas a parte do casório eu deixo para falar em outro momento.

Se o defunto não tiver uma religião que o impeça, basicamente, existem três modalidades de morte: enterro, cremação e doação de órgãos.

No caso do enterro, o número de pesquisas com o verbete “epitáfio” vem crescendo no Google. Pessoas procuram uma frase bonita e profunda (mais do que sete palmos), para gravar na lápide e deixar um recado para a posteridade. Este momento representa uma fina ironia sobre a existência humana: enquanto uma pessoa estará sendo comida pelos vermes, outra estará lendo uma mensagem edificante e memorável. Justo.

Também há um número crescente de pessoas que preferem ser cremadas. Cremar dá muito mais opções, pensam elas. Você vira cinzas e pode desde ser botado numa simples caixinha de madeira, quanto fumado num baseado, queimado com objetos simbólicos (livros, fotos e calcinhas são os mais pedidos), “assoprado” em alto-mar ao som de uma música de novela, ou ir parar numa lata de leite moça e ser enterrado em lugares insólitos, como no Grand Canion.

E para os bonzinhos que por acaso morrerem “intocados”, de morte encefálica (o que é ironicamente bem raro), a doação de órgãos. Não vou explicar demais: já até fizeram um filme a respeito. No entanto, ao contrário do que apareceu no filme (que eu odiei), não é tão parecido com um presente de amigo secreto, no qual você escolhe para quem vai sua córnea ou seu fígado… vai pro primeiro que estiver na fila e for compatível. Ah, essas coisas de Hollywood…

Agora falando sério, engraçado mesmo é como todo mundo que morre se dá melhor: ou vira santo, ou vende mais. Durante a vida a gente sabe que a pessoa não era lá grande coisa, nem parece fazer falta. Mas quando tá prestes a ir pra baixo da terra, meus compadres, todo mundo fica triste. Diz que foi um exemplo de ser humano. Deve ser por isso que alguns vivos, quando ficam deprimidos e se sentem uns bostas, tentam se imaginar no próprio velório.

Bem pessoal, é só isso. Obrigado pela atenção. Até logo, heim! E um conselho: haja o que houve, não morram virgens.

Por Felipe Grilo

Tive a idéia de me propor um desafio: escrever algo sobre alguém que eu não conheço. Alguém que eu nunca vi pessoalmente, nem tenha sabido nada a respeito na mídia. Alguém que, como se provou ao longo da entrevista, eu precisaria mesmo conhecer. Acho que vocês também.

Atualmente este homem é rico, como todos disseram que um dia ele seria. Trabalha muito e ganha bem, também estuda, dá aulas e escreve livros. Sua profissão: consultor. Casado, religioso e com uma linda família, pelo que me disse. E disse com tanto fervor que deveria ser verdade. De resto, viajou o mundo todo dando palestras ou apenas curtindo outras culturas.

Eu o vi andando no parque, e ele, simpático e com tempo livre, me deu o prazer desta pequena entrevista. Durante nossa conversa o senhor, aparentando 70 anos, me contou que teve amigos desde que se lembra da sua infância. Jogava bola com os vizinhos no quintal e fora dele era pega-pega, esconde-esconde, pula-pula e corrida de bicicleta no parque. Nunca sofreu de solidão. Alguns amigos cresceram tão juntos que ainda estão presentes na lista de contatos. Amigos de infância.

Nunca foi protegido demais pelos pais. Portanto, sentia-se livre para conversar o que sabia, aprontar o que pudesse, inventar o que quisesse, sem sofrer demais com as repressões. Os pais o castigavam apenas quando era algo muito perigoso, como subir na laje. Tinha grandes recordações desse tempo. Nunca teve grandes problemas em entender o mundo que o cercava, as pessoas e todo o resto – nem sensível demais, nem de menos.

Se dava bem no colégio, mas não se preocupava apenas em tirar notas altas. Seus pais não o obrigavam a tanto e nem davam valor excessivo ao estudo. O suficiente para passar de ano estava bom, e o resto da sua atenção dedicava a conversar, se divertir e paquerar. Apesar de beleza não ser uma de suas qualidades, se dava bem com as garotas. “Sabia levar na lábia”, me disse.

Ainda no colégio, me contou de todas as coisas que aprontou de todas as vezes que, rindo, foi parar na diretoria. Com ele não tinha vez: era aparecer a oportunidade, pensava rápido em alguma maluquice e zaz, estava feito. Diz com orgulho que nunca hesitou. Viveu de certa forma com ousadia, audácia, sem muitos medos. Levou muito na cabeça, mas aprendeu com os erros e não pela falta deles.

Fez todos os cursos que queria: inglês, espanhol, japonês, desenho, pintura, kung fu, futebol, webdesign, programação, tudo antes de decidir por uma faculdade. Também gostava de ler nos tempos livres, mas nunca demais, a ponto de substituir a vida real. Preferia namorar, jogar bola depois das aulas e sair às sextas, para as baladas. Gostava de dançar e de beber.

Estudou bastante, mas tinha a facilidade de não ser inseguro. Passou de raspão na faculdade que escolheu – e que, aliás, foi escolhida de última hora. Indeciso? Não, era apenas pela emoção de decidir seu futuro naquele instante. Como todo adolescente normal.

Se deu bem com os colegas de turma e com os professores. Além da facilidade em fazer amigos e mobilizá-los, sabia mostrar seu trabalho e impor suas idéias com facilidade. Tinha talento para liderança. Iria ficar rico.

Arranjou empregos com facilidade graças a indicações, mas acima de tudo por ser extrovertido, carismático e interessante – eu mesmo pude apreciar isso, observando a graça com que contava suas histórias. Era seguro, também. E por mais que oportunidades difíceis aparecessem, ele topava sem medo e conseguia superar os desafios.

E foi num desses empregos que conheceu sua atual mulher. Namoraram e a pediu em casamento em pleno expediente, com a torcida dos colegas e com festa para ambos. Mais um dia inesquecível para contar para seus futuros filhos, netos e para este mero e desconhecido curioso que passava por perto. Uma vida inesquecível.

Pena que eu não conheço este homem. Provavelmente nunca vou conhecê-lo, e nem vocês.

Este homem, meus caros, este homem sou eu.

- Fale-me um pouco sobre você.

- \o/

- Se você fosse um animal, qual seria?

- \o/

- Como você se vê daqui a 5 anos?

- \o/

- Quais são suas principais qualidades? E os pontos que precisa melhorar?

- \o/

- Parabéns, você está contratado.

- \o/

Por Felipe Grilo.

 

Acordo, faço afagos no meu gato e vou tomar café que sobrara na garrafa térmica, que desconfio não terem fechado direito. Amornado pelo tempo, o líquido escorre devagar e se mescla ao leite engordurado que perecia na leiteira. Ainda resta a fumaça do que antes deveria ser calor, e a respiro antes do primeiro gole para não perder a sensação. O pão está envelhecido. Parece ter a minha idade. Não sinto vontade de encostá-lo na boca. Recordo que não me lembro do meu último beijo em alguém.

Com meu pijama, um casaco e um chinelo improvisado nos pés cobertos pela meia, ando cuidadosamente pelo corredor. Pelas beiradas vou dobrando as curvas, até chegar aos baldes de lixo.

Separados entre recicláveis e não-recicláveis, cada sacola nas minhas mãos possui uma cor: verde para os primeiros, azul para os segundos. Em caso de dúvida, era só sentir o peso: restos orgânicos são sempre mais incômodos de carregar.

É uma sexta-feira chuvosa. Nove horas de um novo dia. Céu branco acinzentado. Para trás de mim, deixo a porta aberto de meu apartamento. Ainda no escuro, sem aparelhos ligados, janelas fechadas, camas por fazer e a típica poeira no ar que faz a respiração sofrer. Todos foram trabalhar e cuidar de suas vidas. Fiquei eu com o papel de arrumar a bagunça da noite anterior.

Ao olhar para as janelas vizinhas, sinto que minha cidade não saiu das cobertas: as nuvens cobrem cada casa, cada jardim e cada passante na rua em seus sóbrios guarda-chuvas. A água que cai do céu é silenciosa e melancólica – me lembra as lágrimas de alguém que dorme com saudades de alguém. Talvez sejam as minhas. O efeito anestésico das lembranças efêmeras só é quebrado por uma máquina de lavar. Um estômago metálico que gira com a ânsia dos trapos sujos que comeu.

Abro as tampas de um dos baldes com as duas sacolas nas mãos. Mas há algo errado. Não lembro qual é o lixo reciclado e qual não é. Esqueci também qual a cor de cada um, e por segundos ambos – restos orgânicos e plásticos – pareciam ter o mesmo peso. É difícil definir a sensação, pois nem esquecimento parecia. Tudo o que fiz, por segundos intermináveis, foi observar as sacolas, os baldes e meus pés. Talvez nem observar seria: não havia nada de incomum a não ser eu mesmo.

E assim fiquei: atônito. Sem movimentos. Sem pensamentos ou sensações. Sem frio, sem calor, sem ar para respirar. Nem mesmo vestígios de existir. Apenas permanecia. Imóvel. Calado. Ausente. Senti alguém se aproximando, fazendo sombra. Sem pudores ou vergonhas daquela cena patética, virei-me e descobri ser apenas um vaso de planta. Como não puxou assunto, voltei à minha letargia.

Por um momento, parecia que havia penetrado no insólito mundo real, e que dele não conseguia despertar. Por um momento, então, notei que nada havia. Tentei me lembrar de quem sentia saudades, e não havia ninguém. Por quem havia chorado, não havia. Quem tivesse beijado, não havia. Não tinha havido festa na noite anterior. Nem pessoas que tivessem ido trabalhar, nem cuidar de suas vidas. Não morava com ninguém.

Tudo o que havia era o lixo, o barulho da máquina e o café amargo no meu estômago. Este sim metálico, que girava com ânsia dos trapos sujos que comi: a miséria, a sofreguidão, os momentos insossos dos quais me alimentava há tantos anos. Senti uma vontade quase incontrolável de vomitar a mim mesmo. Decidi rápido qual sacola ia em qual balde, voltei a passos rápidos, fechei a porta de meu apartamento escuro e não saí mais pelo resto do dia.

Agora que estou com um pouco de tempo, resolvi escrever pra tirar um pouco a poeira do blog =). Ah, fiquem tranquilos: não é autobiográfico.

De frente para uma avenida, um homem em cima de uma escada e de cola em punho, ajeitou minhas folhas, me deu forma e aqui estou. Um outdoor de formato convencional, impressos em quatro cores e sem apliques, oito palavras em uma frase, uma foto de alguém, outra do produto e a marca de um anunciante. Antes de estar aqui não lembro como fui concebido, mas o mais comum é que publicitários desenhem e escrevam minhas mensagens dentro de um computador, para depois passarem tudo a uma impressora gigante, e então ao suporte metálico que pode estar em qualquer rua, avenida, estrada… tudo a depender das decisões que fizerem por mim.

Não sei até que ponto isso se parece com a gestação de uma pessoa, boa ou má, pela sua sociedade. Só sei que daqui de cima vejo um garoto pichando o muro com sua assinatura. Nós dois somos vândalos. Um com motivos para ser, outro sem. Custa saber qual é qual.

Não importa. Nasci (ou melhor dizendo, surgi) e tenho uma missão a cumprir até meu último dia de vida, que será daqui a 14 dias – uma bissemana, como dizem os publicitários: dizer estas oito palavras, mostrar estas imagens e o logotipo do anunciante ao maior número de pessoas possível. Em suma, vender uma idéia.

Daqui de cima vejo um daqueles pregadores de igreja que procuram salvar vidas com seus sermões. Vejo também índios tocadores de flautas e vendedores ambulantes. Todos eles possuem algo em comum comigo: passam a vida tentando vender as suas idéias a outras pessoas, que as ignoram como se fossem mendigos. A única diferença entre eles e eu é que não sabem quanto tempo têm de vida. Ah, se soubessem…

Para fazer meu trabalho com mais eficiência, é muito apropriado que eu seja assim: grande em proporções, berrante nas cores e simples nas idéias. Uma mensagem gritada, sem romance, sem diálogo e, não raramente, sem razão.

Quando chegar a noite você vai ver o mesmo que eu: uma prostituta encostada no poste. Ela se monta, se maqueia, se penteia e se exibe marginal e maravilhosamente… mas quando chega alguém o papo é curto: “você me dá 5, eu chupo seu pau.”

Como é de dia, podemos ficar com vistas mais prosaicas (se é que um vocabulário assim cabe para um outdoor). Veja: malabaristas de farol, moças de concessionária, mendigos, punks de boutique, empresários e todas as outras pessoas procuram chamar atenção pelo que vestem, possuem, fazem, exibem… mas se chegar perto demais, mais intimamente, não possuem mais do que oito palavras para compartilhar.

Eu, outdoor, preciso disputar a atenção dos passantes em meio a diversos outros outdoors por aqui. Nós nos ignoramos: dizemos o que precisamos dizer, mas não conversamos sobre o que dizemos. Afinal, ninguém pode questionar que o MEU sabão lava mais branco que o dele, por mais irracional que seja a afirmação. Não é possível lavar cada vez mais branco.

Vejo muita gente de carne e osso, passando pela rua, que age da mesma forma falando ao celular.

Nunca achei nada disso muito triste, apesar de meus dias acabarem rápido. Tenho 14 dias para colocar a minha alma neste mundo. Uma promessa de felicidade que deve marcar eternamente a vida das pessoas… isto é, até eu serei trocado por uma propaganda de condomínio em construção. É verdade que alguns vão notar a mudança na paisagem, mas ninguém vai sentir a minha falta. Nem mesmo da promessa que eu fiz e parti sem cumprir. Estão acostumadas. Meu sucessor fará uma promessa ainda melhor.

É, a vida é assim. É como aquele casalzinho lá embaixo. O garoto está prometendo à sua garota que nunca mais vai magoá-la, que é o amor de sua vida e que serão felizes para sempre. Mesmo depois do casamento. Daqui a uma bissemana eles terminam o namoro.

Quando uma daquelas plumas flutua pelo ar, eu paro o que estou fazendo para observá-la. Desde a infância é a coisa mais natural do mundo para mim, mesmo que já tenha percebido como, para as outras pessoas, é ser algo corriqueiro e sem significado. Eu, estranhamente, sempre vi nestas plumas um significado profundo.

A dança que fazem no ar pode significar as correntes de ar que a envolvem ou a envolveram até chegar até mim. Estas mesmas correntes podem ter vindo de massas de ar quente e frias no ambiente, ou simplesmente do vácuo das coisas, animais e pessoas que passaram por elas. Podem ter se originado das asas de uma ave distante que passava pelo local, ou talvez, que nunca tenha visto aquelas paisagens. A pluma, sem saber, pode ter passado por locais onde nunca estivemos ou de onde nunca escaparíamos, e ter percorrido distâncias que nunca faremos em vida. E ainda sem saber, talvez tenha chegado a altitudes maiores do que sua ex-dona. E quando esta última morrer, a pluma ainda estará flutuando.

A pluma não tem mais destino e não é de ninguém. Mesmo inanimada, ela “vive” neste “mundo” e move-se com ele. Eu disse “vive”, porque todo este movimento a faz parecer viva. E eu disse “mundo”, pois, se for viva e ninguém se importar, é porque esta pluma é como um fantasma ou um espírito, não fazendo parte daqui.

E quando tentavam apanhá-la, não conseguiam: a pluma dançava e gingava por entre os braços apressados de seus opressores. Mas eu, de tanto observar seu movimento e tudo o que a faz mover-se, consegui apanhar a pluma flutuante sem o menor esforço. Estivesse ela perto ou muito longe de mim, eu estendia o braço e a pluma adormecia na palma da minha mão.

Perguntavam-me o que eu tanto fazia olhando para as plumas. Não sabia responder. Mais tarde, notei que todas as pessoas são como elas em parte de sua existência. E também percebi que, de alguma forma, eu não era só uma pluma como as outras, mas sim todo o meu trajeto neste mundo.

Hoje, eu chamo isso de consciência.