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O homem que não tinha mais nada a dizer – Parte I

Era uma vez um certo João, pessoa alegre e mirrada, de gingado torto, que era cara falante e extrovertido. Quando menos se esperava, tinha uma boa piada para contar ou estava informado sobre os assuntos que você mais gostava de discutir. Ou, pelo menos, os assuntos que geravam mais assuntos, e estes mais assuntos ainda, de forma que a rodinha com os amigos no bar nunca parava de rir, brindar, aplaudir, urrar e sacolegar as mesas do bar.

Mas João sofria de um mal um tanto complicado. Quando voltava para casa e colocava sua cabeça no travesseiro, sentia que não conseguiu dizer tudo aos seus amigos. Remoía a idéia de que, por mais legal que fosse, tudo aquilo não era importante. Logo todos os amigos voltavam para suas rotinas e deixavam os papos-furados de João de lado. Não havia nada que pudesse ser aproveitado.

E João tinha muita coisa séria para dizer. Gostaria de falar de amor, de solidão, de falsidade, de traumas, de felicidade e de tanta coisa para as quais… não tinha expectadores. Porque logo viriam os “Pô, qualé João? Você não é disso!” e o enxotariam para mais uma piada. Para esquecer a realidade e se entreter. Ele sabia que seria assim porque era sempre assim, como acontecia ao tentar com os colegas de trabalho, com a família, a namorada e todos que o cercavam. E então foi guardando para depois, e para depois. Durante uns dez anos, nunca encontrou ninguém para conversar de verdade.

Até que, um dia, furioso com a vida e agonizando de tanto ficar calado, saiu do trabalho mais cedo e começou a falar. A falar sozinho, sobre tudo o que sentia, pensava, imaginava de filosofia à política, de religião à ciência, da situação econômica da classe média brasileira ao descaso com os ceifadores de cana nos matagais. E depois, não contente, falou com os amigos tudo o que havia dito a si mesmo. Afirmou com veemência o valor sólido das suas teorias, fez perguntas retóricas a respeito, gesticulou, berrou para calarem a boca, subiu na mesa e discursou sobre cada defeito e podridão que via neles e no mundo. Não conseguia parar de forma alguma, mesmo já não tendo mais amigos depois disso, e então ligou para a família. Despejou sua verborragia sobre a mãe ausente, o pai rígido, as irmãs vagabundas, os primos drogados. Falou a eles todos que pensava ser uma família, e o que sofreu por não ter uma.

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O homem que não tinha mais nada a dizer – Parte II

Sabia que a situação já estava ficando insustentável, e buscou de verdade não chegar a este ponto. Mas não tinha como: teve que abrir o jogo com a namorada. Com ela, discutiu o relacionamento e o que pensava sobre relacionamentos, como o deles se enquadrava ou não, o que precisava mudar ou melhorar, quais eram os defeitos nela que achava quase insuportáveis. Não a deixou retrucar, nem a colocar seu ponto de vista, nada. Ao menor sinal de interrupção, berrava e pedia silêncio.

Sufocado com o término inusitado e violento do namoro, no qual ela chegou a puxar uma faca, as palavras já entalavam engrossadas por um caudaloso rio de lágrimas na sua garganta. Já de camisa amassada e suja de suor, andou por toda a cidade apontando para cada político ou banqueiro corrupto, cada adúltero, corno ou vadia, bandido ou mercenário, fofoqueira ou macumbeira, fazendo acusações infundadas. Ao ser preso, chorava, esperneava e gritava com os policiais que, não o agüentando mais, o mandaram para um manicômio.

Lá encontrou filósofos e personalidades históricas, para os quais dissertou sobre a vida, a existência, os sonhos, a essência, a alma, a consciência, a inteligência e a paixão e outros diacronismos, como o feio e o belo, o justo e o injusto, o bem e o mal. Os calmantes não o deixavam dormir, os anti-depressivos causavam-lhe ainda mais ódio e as mordaças davam-lhe ainda mais liberdade para gesticular freneticamente. Ao passar dos dias, os administradores da unidade de tratamento temeram uma rebelião, um quebra-quebra ou até um assassinato brutal entre os internos, graças às divergências de opinião que João suscitava.

Craque na oratória, seu destino foi ser expulso de todos os lugares e instituições sociais exceto os conventos, igrejas, mosteiros, sinagogas, terreiros e centros espíritas (estes últimos acreditavam que tinha algum espírito na linha). Em cada templo rezou para todos os santos, anjos, profetas, deuses, caboclos e almas com as quais conseguia certo contato. Para todas as divindades possíveis pediu respostas sobre religião, sentido da vida, céu e inferno, divina providência, milagre e energias cósmicas, bênção e maldição, destino e livre-arbítrio.

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O homem que não tinha mais nada a dizer – Parte III

Fraco, há 10 dias sem comer ou beber, finalmente teve um colapso nervoso e desmaiou. Mas não sem antes escrever dezenas de páginas a lápis, com tudo o que estava a pensar, até o instrumento perder a ponta do grafite.

Acordou na casa de seus pais, no outro lado da cidade. Vieram lhe socorrer. Estava imundo, sem dinheiro e documento, e sem seus papéis. Também parecia abatido, sem ânimo para andar ou conversar. Deveria ser a fome que sentia, já evoluída em estado de anemia, fadiga, cansaço.

Serviram-lhe comida e bebida, então se animo para agradecer. Obrigado, disse. E foram suas últimas palavras interessadas desde então.

Sua mente estava em estado tão letárgico que não poderia reunir pensamentos ou associações lógicas. Mais do que isso, não sentia a menor necessidade em utilizar seus neurônios para formular perguntas ou respostas. Quando seus pais vinham conversar, respondia sim, não, talvez, não lembro, sei lá, certo e outras pequenas frases que, como se percebia, eram alienadas do contexto. Nenhum resquício de amargura ou ceticismo, nem mesmo “achismo” ou preconceito.

O deixaram em paz durante um tempo. Mas o tempo passava em vão. A vida lhe passava em vão. Tudo o que fazia era olhar para o teto, deitado em sua cama emprestada. Nem mesmo conversas consigo mesmo conseguia manter. E o vazio que sentia em si mesmo era enorme.

Pouco a pouco, percebendo o seu abatimento moral, alguns vizinhos o convidavam para ir ao bar ver jogos de futebol. Isto costuma animar qualquer um. Durante os 90 minutos mais os acréscimos, nenhum comentário, nem mesmo contra o árbitro. Olhar fixo não na tela, mas através dela. Bocejos.

Aquele homem não sabia o porquê, mas não via necessidade de comentar nada. Tudo, em sua mente, já havia sido dito. Para ele, todos os diálogos travados entre as torcidas no bar eram comuns a todos os outros diálogos, em todos os outros bares, e durante todos os outros jogos, sem distinção.

O chamaram para beber, e ver se soltava-se. Conheciam a fama de falastrão do indivíduo, certamente soltaria algumas boas piadas. Nada a declarar. Apenas a concordar ali ou aqui. Tudo, ao que se recordava, já havia sido dito. Por que dizer mais uma vez o que todos já sabem? Será que ninguém percebe tanta redundância nas informações? Nada havia de novo debaixo daquele sol.

Seus amigos passaram a ligar em seu celular perguntando onde estava, o que havia acontecido de ter sumido assim, tão de repente. Dizia que foi para a casa dos pais, e só. De resto, tudo bem? Tudo. Quando você volta? Não sei. E a conversa não ia além disso. Com o tempo, os camaradas notaram algo estranho na voz que respondia aos chamados. Ela não sorria como antes. A ex-namorada também ligou, avisada pelos boatos que cercavam a triste figura. Não queria ter pena, nem amor pelo João, mas convenceu-se de que o João que um dia conhecera ao fundo da alma não habitava aquele corpo.

Como os boatos são naturalmente, se espalharam rápido e todos aqueles que o expulsaram de suas vidas, o queriam de volta, piedosos por notar que era verdade: João não queria mais falar. Nem sobre política, futebol, religião, mulheres e música. Dos assuntos preferidos aos incômodos, nada era aproveitado. Nem mesmo na terapia que começara a fazer por força dos pais, sem sucesso: tudo o que fazia era olhar o ventilador girando suas hélices e fazendo voar todas as suas sílabas ao vento, pequenas e efêmeras demais para serem capturadas por uma peneira lógica.

Poderiam desconfiar de depressão, mas era mais que isso. Era tédio, puro e simples tédio da vida. Nem exposições, nem cinemas ou jornais o atraíam ao mundo onde as pessoas não cansavam de respirar repetitivamente. O vazio, grande como um abismo que abria mais a cada tremer da terra, o consumia e mostrava-se em sua gênese: uma fenda que atravessava o espírito e a inteligência da vida.

Ao perceber no que vinha se transformando, teve uma última idéia antes do resto de seu ânimo apodrecer por desuso: aproveitaria seu estado para colocar em prática um experimento que vinha ao encontro de sua nova filosofia. Extremamente cético e racional, acreditando que palavra ou frase nenhuma valia a pena ser reiterada, pôs-se a inventar um novo significado.

Ele não encarava apenas como um exercício semântico. Ele realmente queria pensar em algo jamais pensado, para então dizer algo jamais dito, e assim transformar as pessoas em novas pessoas, o mundo em algo totalmente livre e, com tudo isso, transcender a pós-modernidade para um novo estágio de consciência.

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O homem que não tinha mais nada a dizer – Parte IV

Desde então, trancou-se em seu quarto e calou-se profundamente, quase como um monge à espera da iluminação. Tudo o que fazia era pensar, refletir, compreender e fugir o quanto podia dos paradigmas fundamentais da lógica e da razão instaurados em séculos de vã filosofia. Se todos diziam sim, procurava o não, e se todos negavam, procurava o motivo para a aceitação de uma nova moral que educasse o comportamento humano. Não podia aceitar regras ou convicções quaisquer que fossem (nem as suas próprias). Perdia-se em turbulentos maremotos de ideologias conflitantes só para tentar andar sobre eles.

Assim foi por longos anos, sem TV, sem livros e longe de qualquer informação “viciada”. Mantinha-se mais pálido e moribundo do que nunca. Parecia drogado, mas não usava nada nas narinas, na boca ou nas veias. Toda a alucinação que precisava já vinha de dentro de si. A verdade é que estava exausto como nunca estivera antes.

Foi então que, ao dormir, finalmente encontrou a idéia fluida e contemporânea que tanto procurava. Só poderia estar no mundo dos sonhos, esperando por um homem corajoso como Prometeu, que trouxe o fogo divino aos homens, fazer o mesmo com o mais novo pilar do pensamento moderno.

Sabia que todas as idéias formuladas já nasciam mortas e frias. Portanto, manteve-se calmo e procurou não pensar muito na descoberta. E assim foi por mais alguns meses. Neste estágio, já era um homem diferente, com convicções totalmente reformuladas. Seus pares (se é que uma pessoa assim pode ter pares) também não eram os mesmos. Estavam todos bem mudados. Com outros rumos da vida. Rumos bem distantes. Sobretudo, distantes dele.

Foi ao perceber isso que decidiu revelar a luz a todos. Bem que seus trajes, sua barba e cabelos pareciam de um profeta do Antigo Testamento. Este profeta, aquele João muito mudado, no aniversário de um de seus melhores amigos subiu ao palanque improvisado e tomou a atenção de todos. Era a primeira vez em anos que falaria à multidão. Atentos, atônitos e surpresos, todos ouviam o balbuciar fraco e velho daquelas sílabas.

A conclusão a que chegaram foi a seguinte: não estava claro se o homem desaprendera a falar, ou se as pessoas estavam se comunicando em um novo idioma, Mas, certamente, ninguém entendera nada do grande segredo revelado ali.

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