Natal de 2010. Maria, ainda menina, não havia notado os enfeites nas ruas por onde passava por dois motivos: era cega devido aos maus tratos que recebeu, e a data era mais comemorada por ser feriado do que pela vinda de um salvador. A menina só ficou sabendo da data quando uma voz desconhecida, passando por ela, lhe desejou boas festas.
Então era mesmo Natal! Um contentamento a atingiu: os restos de comida que escolhia no meio do lixo logo se transformariam em uma bela ceia. Uma ceia maravilhosa, em uma mesa repleta, rodeada de pais que lhe adotariam. Após sua ceia improvisada, ouviu os cumprimentos entre os ratos que guinchavam fininho de felicidade, se presenteou com as miudezas que havia roubado durante o ano e guardado para a ocasião especial, e foi deitar-se entre o meio-fio e o asfalto, tendo a garoa e a fumaça como sua manta, mas mantendo no candelabro em seu coração um pouco de sonho para se aquecer.
Naquela noite, não precisaria de álcool nem cocaína para sentir-se bem. Bastava-lhe direcionar suas retinas para o alto, o mais que podia, e sentir a presença ofuscante dos pontos luminosos que enfeitavam o céu. Acreditava que as estrelas eram almas vivas, que olhavam pelas pessoas abaixo delas e que algumas vezes atendiam desejos. Naquela noite, o céu estava muito estrelado e bonito – tinha certeza que alguma daquelas estrelas tão brilhantes realizaria seus sonhos.
Natal de 2010. Todos os grandes edifícios mantinham suas luzes ligadas. Centenas de famílias, dependuradas em suas sacadas, faziam contagem regressiva para os fogos de artifício que explodiriam longe dali. Ninguém olhou de volta para Maria.