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Morfina.

Por Felipe Grilo.

 

Acordo, faço afagos no meu gato e vou tomar café que sobrara na garrafa térmica, que desconfio não terem fechado direito. Amornado pelo tempo, o líquido escorre devagar e se mescla ao leite engordurado que perecia na leiteira. Ainda resta a fumaça do que antes deveria ser calor, e a respiro antes do primeiro gole para não perder a sensação. O pão está envelhecido. Parece ter a minha idade. Não sinto vontade de encostá-lo na boca. Recordo que não me lembro do meu último beijo em alguém.

Com meu pijama, um casaco e um chinelo improvisado nos pés cobertos pela meia, ando cuidadosamente pelo corredor. Pelas beiradas vou dobrando as curvas, até chegar aos baldes de lixo.

Separados entre recicláveis e não-recicláveis, cada sacola nas minhas mãos possui uma cor: verde para os primeiros, azul para os segundos. Em caso de dúvida, era só sentir o peso: restos orgânicos são sempre mais incômodos de carregar.

É uma sexta-feira chuvosa. Nove horas de um novo dia. Céu branco acinzentado. Para trás de mim, deixo a porta aberto de meu apartamento. Ainda no escuro, sem aparelhos ligados, janelas fechadas, camas por fazer e a típica poeira no ar que faz a respiração sofrer. Todos foram trabalhar e cuidar de suas vidas. Fiquei eu com o papel de arrumar a bagunça da noite anterior.

Ao olhar para as janelas vizinhas, sinto que minha cidade não saiu das cobertas: as nuvens cobrem cada casa, cada jardim e cada passante na rua em seus sóbrios guarda-chuvas. A água que cai do céu é silenciosa e melancólica – me lembra as lágrimas de alguém que dorme com saudades de alguém. Talvez sejam as minhas. O efeito anestésico das lembranças efêmeras só é quebrado por uma máquina de lavar. Um estômago metálico que gira com a ânsia dos trapos sujos que comeu.

Abro as tampas de um dos baldes com as duas sacolas nas mãos. Mas há algo errado. Não lembro qual é o lixo reciclado e qual não é. Esqueci também qual a cor de cada um, e por segundos ambos – restos orgânicos e plásticos – pareciam ter o mesmo peso. É difícil definir a sensação, pois nem esquecimento parecia. Tudo o que fiz, por segundos intermináveis, foi observar as sacolas, os baldes e meus pés. Talvez nem observar seria: não havia nada de incomum a não ser eu mesmo.

E assim fiquei: atônito. Sem movimentos. Sem pensamentos ou sensações. Sem frio, sem calor, sem ar para respirar. Nem mesmo vestígios de existir. Apenas permanecia. Imóvel. Calado. Ausente. Senti alguém se aproximando, fazendo sombra. Sem pudores ou vergonhas daquela cena patética, virei-me e descobri ser apenas um vaso de planta. Como não puxou assunto, voltei à minha letargia.

Por um momento, parecia que havia penetrado no insólito mundo real, e que dele não conseguia despertar. Por um momento, então, notei que nada havia. Tentei me lembrar de quem sentia saudades, e não havia ninguém. Por quem havia chorado, não havia. Quem tivesse beijado, não havia. Não tinha havido festa na noite anterior. Nem pessoas que tivessem ido trabalhar, nem cuidar de suas vidas. Não morava com ninguém.

Tudo o que havia era o lixo, o barulho da máquina e o café amargo no meu estômago. Este sim metálico, que girava com ânsia dos trapos sujos que comi: a miséria, a sofreguidão, os momentos insossos dos quais me alimentava há tantos anos. Senti uma vontade quase incontrolável de vomitar a mim mesmo. Decidi rápido qual sacola ia em qual balde, voltei a passos rápidos, fechei a porta de meu apartamento escuro e não saí mais pelo resto do dia.

Agora que estou com um pouco de tempo, resolvi escrever pra tirar um pouco a poeira do blog =). Ah, fiquem tranquilos: não é autobiográfico.

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Eu, outdoor.

De frente para uma avenida, um homem em cima de uma escada e de cola em punho, ajeitou minhas folhas, me deu forma e aqui estou. Um outdoor de formato convencional, impressos em quatro cores e sem apliques, oito palavras em uma frase, uma foto de alguém, outra do produto e a marca de um anunciante. Antes de estar aqui não lembro como fui concebido, mas o mais comum é que publicitários desenhem e escrevam minhas mensagens dentro de um computador, para depois passarem tudo a uma impressora gigante, e então ao suporte metálico que pode estar em qualquer rua, avenida, estrada… tudo a depender das decisões que fizerem por mim.

Não sei até que ponto isso se parece com a gestação de uma pessoa, boa ou má, pela sua sociedade. Só sei que daqui de cima vejo um garoto pichando o muro com sua assinatura. Nós dois somos vândalos. Um com motivos para ser, outro sem. Custa saber qual é qual.

Não importa. Nasci (ou melhor dizendo, surgi) e tenho uma missão a cumprir até meu último dia de vida, que será daqui a 14 dias – uma bissemana, como dizem os publicitários: dizer estas oito palavras, mostrar estas imagens e o logotipo do anunciante ao maior número de pessoas possível. Em suma, vender uma idéia.

Daqui de cima vejo um daqueles pregadores de igreja que procuram salvar vidas com seus sermões. Vejo também índios tocadores de flautas e vendedores ambulantes. Todos eles possuem algo em comum comigo: passam a vida tentando vender as suas idéias a outras pessoas, que as ignoram como se fossem mendigos. A única diferença entre eles e eu é que não sabem quanto tempo têm de vida. Ah, se soubessem…

Para fazer meu trabalho com mais eficiência, é muito apropriado que eu seja assim: grande em proporções, berrante nas cores e simples nas idéias. Uma mensagem gritada, sem romance, sem diálogo e, não raramente, sem razão.

Quando chegar a noite você vai ver o mesmo que eu: uma prostituta encostada no poste. Ela se monta, se maqueia, se penteia e se exibe marginal e maravilhosamente… mas quando chega alguém o papo é curto: “você me dá 5, eu chupo seu pau.”

Como é de dia, podemos ficar com vistas mais prosaicas (se é que um vocabulário assim cabe para um outdoor). Veja: malabaristas de farol, moças de concessionária, mendigos, punks de boutique, empresários e todas as outras pessoas procuram chamar atenção pelo que vestem, possuem, fazem, exibem… mas se chegar perto demais, mais intimamente, não possuem mais do que oito palavras para compartilhar.

Eu, outdoor, preciso disputar a atenção dos passantes em meio a diversos outros outdoors por aqui. Nós nos ignoramos: dizemos o que precisamos dizer, mas não conversamos sobre o que dizemos. Afinal, ninguém pode questionar que o MEU sabão lava mais branco que o dele, por mais irracional que seja a afirmação. Não é possível lavar cada vez mais branco.

Vejo muita gente de carne e osso, passando pela rua, que age da mesma forma falando ao celular.

Nunca achei nada disso muito triste, apesar de meus dias acabarem rápido. Tenho 14 dias para colocar a minha alma neste mundo. Uma promessa de felicidade que deve marcar eternamente a vida das pessoas… isto é, até eu serei trocado por uma propaganda de condomínio em construção. É verdade que alguns vão notar a mudança na paisagem, mas ninguém vai sentir a minha falta. Nem mesmo da promessa que eu fiz e parti sem cumprir. Estão acostumadas. Meu sucessor fará uma promessa ainda melhor.

É, a vida é assim. É como aquele casalzinho lá embaixo. O garoto está prometendo à sua garota que nunca mais vai magoá-la, que é o amor de sua vida e que serão felizes para sempre. Mesmo depois do casamento. Daqui a uma bissemana eles terminam o namoro.

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Plumas

Quando uma daquelas plumas flutua pelo ar, eu paro o que estou fazendo para observá-la. Desde a infância é a coisa mais natural do mundo para mim, mesmo que já tenha percebido como, para as outras pessoas, é ser algo corriqueiro e sem significado. Eu, estranhamente, sempre vi nestas plumas um significado profundo.

A dança que fazem no ar pode significar as correntes de ar que a envolvem ou a envolveram até chegar até mim. Estas mesmas correntes podem ter vindo de massas de ar quente e frias no ambiente, ou simplesmente do vácuo das coisas, animais e pessoas que passaram por elas. Podem ter se originado das asas de uma ave distante que passava pelo local, ou talvez, que nunca tenha visto aquelas paisagens. A pluma, sem saber, pode ter passado por locais onde nunca estivemos ou de onde nunca escaparíamos, e ter percorrido distâncias que nunca faremos em vida. E ainda sem saber, talvez tenha chegado a altitudes maiores do que sua ex-dona. E quando esta última morrer, a pluma ainda estará flutuando.

A pluma não tem mais destino e não é de ninguém. Mesmo inanimada, ela “vive” neste “mundo” e move-se com ele. Eu disse “vive”, porque todo este movimento a faz parecer viva. E eu disse “mundo”, pois, se for viva e ninguém se importar, é porque esta pluma é como um fantasma ou um espírito, não fazendo parte daqui.

E quando tentavam apanhá-la, não conseguiam: a pluma dançava e gingava por entre os braços apressados de seus opressores. Mas eu, de tanto observar seu movimento e tudo o que a faz mover-se, consegui apanhar a pluma flutuante sem o menor esforço. Estivesse ela perto ou muito longe de mim, eu estendia o braço e a pluma adormecia na palma da minha mão.

Perguntavam-me o que eu tanto fazia olhando para as plumas. Não sabia responder. Mais tarde, notei que todas as pessoas são como elas em parte de sua existência. E também percebi que, de alguma forma, eu não era só uma pluma como as outras, mas sim todo o meu trajeto neste mundo.

Hoje, eu chamo isso de consciência.

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Desculpas

O ateu coloca a culpa nos genes. O religioso, em Deus. O humanista, na sociedade. E o niilista, no acaso. Mas todo ser humano tem uma coisa em comum: quando precisa limpar a consciência, joga sua culpa fora no terreno baldio das abstrações.

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